Por Dâmaris A C Melgaço
Eu gosto de contemplar a noite e de olhar para o céu. Ao olhar para cima, contemplo também a minha insignificância humana diante do cosmo. Pessoas que não desenvolveram a capacidade de olhar para cima e contemplar a noite geralmente acreditam em sua grandiosidade, que lhes outorga o direito de humilhar e submeter os seus semelhantes à sua engenhosa sabedoria. Elas fixam o olhar na ilusão diurna que a luz do sol propicia. Ao olharem para cima, acreditam ver, mas não veem. O que elas contemplam é apenas a ilusão de um céu colorido e fechado, com gaivotas voando e nuvens cobrindo o horizonte, tal qual explicita a canção "Aquarela", de Toquinho, Vinicius de Moraes e Guido Morais (1983).
O sol — esse astro-rei — cantarola a vida fake de quem não se permite ampliar, mas que descolorirá. E é descolorindo, sob essa dimensão consciente que o descoloramento do sol proporciona, em sua translação habitual, enquanto sua aliada, a mãe Terra, rotaciona, que a ilusão humana se põe junto a ele. É na escuridão que a vida se revela autêntica.
Por isso, eu gosto de contemplar a noite e olhar para o céu. Nele contemplo a imensidão do universo; os astros e os planetas me engolem e me chamam a assumir o meu lugar, tal qual a figura do "Pequeno Príncipe", de Antoine de Saint-Exupéry (1943). O Pequeno Príncipe nos coloca no exato lugar que temos no universo. Uma alegoria que desnuda a arrogância e a ínfima existência humana.
Quando em contato com a luz do sol, o ser humano é impedido de assumir o seu lugar e cria a ilusão de ser grandão, de ser o portador da luz que ilumina as trevas; porque detentor do conhecimento, acredita ser também detentor do poder de mudar a mente daqueles que são ínfimos, débeis, ignorantes, alienados e fracassados. E que honra é encontrar-se com essa força e sorver de tanta sabedoria, não é? Sim, diz a ignomínia do saber.
No entanto, quando mergulhado no escuro solar, o mesmo homem se reduz à sua pequenez, ao seu pequeno planeta e, ali, assume a singularidade de ser cativo, não de si, mas do outro.
Diante da imensidão do universo, o ser humano desce ao único lugar que realmente lhe aguarda: a espera do seu fim. É ali, nesse lugar, que ele pode entender-se finalmente finito, uma poeira cósmica que agora é e — logo ali — já não é.
"Então, tu também vens do céu! De que planeta és tu?" (Saint-Exupéry, 1943/2009, p. 19). Dito isto, reconhecemos que nossa origem é poeira cósmica. Há tanto a ser explorado, há tanto desconhecido, que não sobra tempo para sermos arrogantes.
Entretanto, é notório que, embora providos da experiência lunar, nos acotovelamos com nossa vaidade e luxúria de "O Príncipe", de Nicolau Maquiavel (1532).
Saint-Exupéry (1943/2009), ao afirmar que, quando estamos tristes demais, gostamos do pôr do sol, explicita a tristeza de quem compreendeu o seu lugar, mas se depara com a limitação das cores ilusórias. Sim, o pôr do sol encerra o ciclo da ilusão humana.
De certa forma, o sol aparente no satélite Lua permite que busquemos o essencial nas estrelas. É ali que a solidariedade da paz com outros humanos ocorre no encontro com a vida e a morte, que nunca são finitas, porque se perpetuam nas gerações que aprenderam a apreciar o sol, mas, sobretudo, a apreciar a Lua.
Vale a pena ler ou reler:
MAQUIAVEL, Nicolau. O príncipe. São Paulo: Martins Fontes, 2004. Disponível em:
SAINT-EXUPÉRY, Antoine de. O pequeno príncipe. Tradução de Dom Marcos Barbosa. Rio de Janeiro: Agir, 2009.
Disponível em:
Vale a pena escutar de novo:
MORAES, Vinicius de; TOQUINHO; MORAES, Guido. Aquarela. Intérprete: Toquinho. In: TOQUINHO. Aquarela. São Paulo: Ariola, 1983. 1 faixa.
Disponível em: https://open.spotify.com/intl-pt/track/5iPTYBZyOEleyWkE7NTYCc.