segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Impunes e impecáveis: o jogo da disputa das cores, dos vícios e das dores




Hoje é um dia que podemos chamar de ideológico, uma vez que construímos coletivamente a compreensão de que coletivo e democracia são conceitos atravessados por contradições. O coletivo implica a união de diversos indivíduos, cada qual uno em sua singularidade; a democracia, por sua vez, pressupõe o poder desse coletivo de decidir os destinos de uma nação. Mas não seria essa união um simulacro de unidade, uma vez que a unicidade é provavelmente impossível quando se trata do coletivo? Nesse sentido, a liberdade do indivíduo, em sua singularidade, pode entrar em contradição com as decisões coletivas. Afinal, como conciliar a liberdade de cada um com o poder de todos?

Tenho observado as pressões ideológicas sobre as personas constituídas por uma sombra de diversas contradições. No atual cenário, quando não há honradez, difícil fica a defesa de quaisquer candidatos à direção dos coletivos. A política, que deveria representar a disputa por projetos de sociedade, parece, muitas vezes, reduzir-se à disputa entre aqueles que reivindicam para si a legitimidade de conduzir os demais. Nesse jogo, as cores partidárias identificam os lados, mas nem sempre revelam as práticas que os aproximam.

Embora o Partido dos Trabalhadores (PT) e sua principal liderança, Luiz Inácio Lula da Silva, tenham construído uma trajetória relevante na luta sindical, no processo de redemocratização e na ampliação de direitos sociais, essa história também é atravessada por escândalos políticos, denúncias de corrupção e contradições entre os princípios defendidos e as práticas de integrantes do partido. Reconhecer as conquistas históricas do PT não significa ignorar suas responsabilidades políticas; da mesma forma, reconhecer os problemas de seus adversários não significa desconsiderar os que envolvem o próprio partido. O que está em questão é justamente a seletividade com que julgamos os acontecimentos conforme as cores daqueles que os protagonizam.

Em 2004, veio a público o caso Waldomiro Diniz, após a divulgação de um vídeo gravado em 2002, quando ele presidia a Loterj, no qual aparecia uma negociação envolvendo cobrança de propina e solicitação de recursos para campanhas eleitorais. Em 2005, o escândalo do mensalão expôs um esquema de pagamentos a parlamentares em troca de apoio político no Congresso Nacional, denunciado publicamente pelo deputado Roberto Jefferson. Em 2006, o episódio dos aloprados envolveu integrantes ligados à campanha de reeleição de Lula que tentaram comprar um dossiê contra adversários políticos, entre eles José Serra e Geraldo Alckmin.

Esses episódios não podem ser tratados apenas como manchas isoladas na trajetória de um partido. Eles expõem a distância entre o discurso de transformação política e as práticas utilizadas para sustentar alianças e conquistar apoio. Quando a disputa pelo poder passa a admitir mecanismos que contradizem os princípios anunciados, a questão deixa de ser apenas quem cometeu determinada irregularidade e passa a envolver a própria maneira de fazer política.

Em 2006, Antonio Palocci deixou o Ministério da Fazenda em meio a denúncias relacionadas à frequência a uma casa em Brasília e a suspeitas de quebra de sigilo bancário. Em 2011, já no governo Dilma Rousseff, renunciou à chefia da Casa Civil após questionamentos sobre a evolução de seu patrimônio. Naquele mesmo ano, outros ministros deixaram o governo após denúncias de irregularidades, entre eles Alfredo Nascimento, dos Transportes, e Wagner Rossi, da Agricultura. A sucessão desses episódios contribuiu para o desgaste da imagem de um governo que também se apresentava como portador de mudanças. A contradição entre o projeto político anunciado e as práticas de integrantes do governo passou a alimentar a desconfiança pública.

Em 2012, o Supremo Tribunal Federal concluiu o julgamento do mensalão, condenando diversos réus por crimes como corrupção ativa e passiva, peculato e lavagem de dinheiro. Em 2014, a Operação Lava Jato revelou um amplo esquema de corrupção envolvendo contratos da Petrobras, empreiteiras, agentes públicos e políticos de diferentes partidos, inclusive do PT. Em 2015, João Vaccari Neto, então tesoureiro do partido, foi preso preventivamente no âmbito da operação, e José Dirceu voltou a ser preso. A sucessão desses acontecimentos aprofundou o desgaste do PT e fortaleceu o discurso de que seria necessário retirar do poder aqueles que haviam prometido combater as práticas tradicionais da política brasileira.

Mas a indignação diante da corrupção não se desenvolve em um vazio ideológico. Ela também é disputada, direcionada e mobilizada por interesses políticos. Quando a responsabilização de alguns passa a representar a esperança de uma renovação moral, corre-se o risco de confundir a punição de determinados agentes com a transformação das estruturas que permitem a reprodução das mesmas práticas. Afinal, se a política continua dependente de acordos, alianças e interesses que ultrapassam as fronteiras partidárias, a troca de seus protagonistas não garante, por si só, a mudança do jogo.

Em 2016, Dilma Rousseff sofreu impeachment, aprovado pelo Senado Federal sob a acusação de crime de responsabilidade relacionada a decretos de créditos suplementares e às chamadas pedaladas fiscais. O processo permaneceu objeto de controvérsia política e jurídica. Naquele contexto, o PT enfrentava forte desgaste público, enquanto o antipetismo se ampliava e criava condições para a ascensão de lideranças que se apresentavam como alternativas à política tradicional. As pedaladas fiscais passaram a ocupar o centro de uma disputa que não se limitava à interpretação jurídica dos atos presidenciais: envolvia também a legitimidade do governo, os interesses em disputa e a possibilidade de reorganização do poder político.

A prisão de Lula, em abril de 2018, aprofundou esse cenário. Condenado no caso do tríplex do Guarujá, ele permaneceu preso por 580 dias. Posteriormente, em 2021, o STF confirmou a anulação das condenações por incompetência da Justiça Federal de Curitiba e, em decisão distinta, manteve o reconhecimento da suspeição do ex-juiz Sergio Moro no processo do tríplex. Essas decisões restabeleceram os direitos políticos de Lula, mas não equivaleram a uma absolvição de mérito de todas as acusações. A distinção importa porque a crítica política não deve se sobrepor à precisão jurídica. Ao mesmo tempo, o episódio revela como os processos judiciais podem adquirir consequências políticas profundas e como a confiança nas instituições depende também da observância das garantias legais.

É nesse ambiente de desgaste e desconfiança que se deve compreender a ascensão de Jair Messias Bolsonaro. Sua trajetória política, marcada por posições conservadoras, declarações controversas e manifestações de admiração pela ditadura militar, encontrou ressonância entre setores da população insatisfeitos com o PT, temerosos da violência urbana e descrentes das instituições políticas. Bolsonaro apresentou-se como uma alternativa moralizadora, associando sua candidatura ao combate à corrupção, à defesa da família, à segurança pública e à rejeição da esquerda.

A promessa de renovação, entretanto, não surgiu sem contradições. Em 1986, Bolsonaro foi preso por quinze dias após criticar os salários dos militares em um artigo publicado na imprensa. Em 1987, foi acusado de participar de um plano para explodir bombas em instalações militares; o Superior Tribunal Militar acabou por absolvê-lo por insuficiência de provas. Já como parlamentar, tornou-se conhecido por declarações discriminatórias contra pessoas LGBTQIAP+ e por sua oposição a iniciativas educacionais de combate à homofobia. Em 2014, dirigiu à deputada Maria do Rosário uma declaração ofensiva relacionada à violência sexual, episódio que resultou em condenação civil por danos morais e em processo criminal no Supremo Tribunal Federal.

Esses episódios ajudam a compreender uma contradição central da política brasileira: a imagem de renovação moral pode ser construída sem que as práticas, as declarações e os valores de quem a reivindica sejam examinados com o mesmo rigor aplicado aos adversários. O discurso de defesa da família, da ordem e dos bons costumes não elimina a necessidade de confrontar as ações concretas com os princípios anunciados. Afinal, a moralidade política não se sustenta apenas naquilo que alguém afirma defender, mas também na maneira como trata os outros e compreende os limites do próprio poder.

Em 2018, Bolsonaro venceu a eleição presidencial, em uma disputa na qual Lula, então líder nas pesquisas eleitorais, foi impedido de concorrer após o indeferimento de seu registro pelo Tribunal Superior Eleitoral. Fernando Haddad assumiu a candidatura do PT. A eleição foi marcada pelo antipetismo, pela força das redes sociais, pelo discurso anticorrupção e pela mobilização de setores conservadores. A vitória de Bolsonaro expressou, entre outros fatores, a insatisfação de parte da população com a política tradicional e a esperança de que uma nova liderança pudesse romper com as práticas que haviam alimentado a desconfiança nas instituições.

A promessa de romper com a velha política, entretanto, conviveu com a necessidade de construir alianças parlamentares. Ao longo do governo, Bolsonaro aproximou-se de partidos tradicionais e de setores do Centrão para sustentar sua base no Congresso. O discurso de renovação moral, portanto, não eliminou as práticas de negociação política que caracterizam a governabilidade brasileira. A contradição não está na existência de acordos políticos em si, necessários ao funcionamento de um sistema representativo, mas na distância entre a retórica de ruptura e a reprodução de mecanismos que antes eram apresentados como sinais de decadência política.

O governo também foi marcado por controvérsias envolvendo familiares do presidente. Entre elas esteve o caso das chamadas rachadinhas no gabinete de Flávio Bolsonaro, então deputado estadual no Rio de Janeiro, no qual Fabrício Queiroz foi apontado como operador financeiro de um suposto esquema de recolhimento de parte dos salários de assessores. A investigação envolveu questionamentos sobre movimentações financeiras, nomeações e transações imobiliárias. Contudo, a denúncia contra Flávio foi rejeitada pela Justiça do Rio em 2022, após decisões do STJ e do STF invalidarem elementos de prova utilizados na acusação. Portanto, o caso não pode ser apresentado como uma condenação criminal de Flávio.

Ainda assim, a repercussão política do episódio expõe a fragilidade de discursos que reivindicam superioridade moral enquanto os próprios círculos de poder estão sob questionamento. A crítica, nesse caso, não depende de converter suspeitas em culpa comprovada, mas de reconhecer que a coerência entre discurso e prática precisa ser examinada de maneira permanente, com respeito às garantias jurídicas e sem privilégios decorrentes de alianças políticas.

Em abril de 2020, Sergio Moro, que havia aceitado o convite de Bolsonaro para assumir o Ministério da Justiça, deixou o governo acusando o presidente de tentar interferir politicamente na Polícia Federal. A ruptura evidenciou que a aproximação entre o juiz responsável pela condenação de Lula e o presidente eleito em 2018 não constituía uma aliança permanente. Também intensificou o debate sobre a relação entre Judiciário, governo e imparcialidade institucional. Mais uma vez, a disputa política revelou que alianças construídas em nome de objetivos comuns podem se desfazer quando entram em conflito interesses e concepções sobre o exercício do poder.

A pandemia de covid-19 aprofundou as controvérsias sobre o governo Bolsonaro. A CPI da Pandemia, instalada no Senado em 2021, investigou a atuação federal diante da crise sanitária, incluindo a aquisição de vacinas, o incentivo a medicamentos sem eficácia comprovada contra a doença e a condução das políticas públicas. Ao final, a comissão recomendou o indiciamento do presidente e de outras pessoas por diferentes infrações. Essas recomendações não equivalem a condenações judiciais, mas os acontecimentos colocaram em debate a responsabilidade política diante de uma crise que atingiu a vida de milhões de brasileiros.

É nesse ponto que a discussão sobre moralidade deixa de ser apenas uma disputa entre grupos políticos. Quando decisões governamentais envolvem a saúde, a segurança e as condições de vida da população, suas consequências não podem ser reduzidas à conveniência partidária. A responsabilidade pública exige que discursos e ações sejam confrontados com seus efeitos concretos, sobretudo quando vidas humanas estão em jogo.

Posteriormente, investigações também examinaram a entrada de joias recebidas de autoridades estrangeiras e as tentativas de incorporá-las ou comercializá-las fora dos procedimentos de registro e destinação do patrimônio público. Esses episódios ampliaram os questionamentos sobre a coerência entre o discurso moralizador e as práticas de integrantes do governo e de seu entorno. Mais uma vez, a questão que atravessa o ensaio não é apenas a existência de denúncias, mas o modo como os valores proclamados são submetidos — ou deixam de ser submetidos — ao exame público.

A derrota eleitoral de Bolsonaro para Lula, em 2022, não encerrou o conflito político. Ao contrário, a contestação do resultado eleitoral e os acontecimentos posteriores levaram a novas investigações. Em 2023, o Tribunal Superior Eleitoral declarou Bolsonaro inelegível por oito anos, a partir das eleições de 2022, por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação na reunião com embaixadores em que atacou, sem provas, a confiabilidade do sistema eleitoral. Essa decisão eleitoral deve ser distinguida da condenação criminal posterior.

Em 2025, o STF condenou Bolsonaro a 27 anos e três meses de prisão no processo relativo à trama golpista. A Primeira Turma concluiu, por quatro votos a um, que ele era responsável por crimes relacionados à tentativa de golpe de Estado e à abolição violenta do Estado Democrático de Direito, entre outros. Após o esgotamento dos recursos pertinentes, a condenação tornou-se definitiva. Esses acontecimentos introduzem uma dimensão decisiva na análise: a disputa pelo poder pode ultrapassar a competição eleitoral e colocar em questão a própria continuidade das regras democráticas. A defesa da ordem, quando se volta contra os mecanismos que legitimam a escolha popular, deixa de ser apenas uma promessa política e passa a revelar uma contradição fundamental.

A atuação do Supremo nesses episódios suscita questões importantes. No caso de Lula, o Tribunal anulou condenações por razões processuais e reconheceu a parcialidade do juiz no caso do tríplex. No caso de Bolsonaro, a Primeira Turma examinou as provas de uma ação penal e concluiu por sua responsabilidade criminal na trama golpista. Os resultados tiveram consequências políticas expressivas, mas não são juridicamente equivalentes. Uma análise consistente precisa considerar os fundamentos de cada decisão, as garantias processuais, as provas e os votos dos ministros, sem pressupor que toda decisão favorável a um campo político seja fruto de articulação partidária ou que toda decisão desfavorável ao outro seja necessariamente imparcial.

É justamente essa distinção que permite sustentar uma crítica sem transformá-la em mera disputa de versões. Não se trata de afirmar que todos são iguais, nem de escolher quais irregularidades merecem indignação conforme a identidade política de seus protagonistas. Trata-se de questionar por que a responsabilização parece ganhar força em determinadas circunstâncias e perder relevância em outras, enquanto a população é convocada a escolher entre projetos que frequentemente se apresentam como moralmente opostos.

É nesse cenário que a trajetória de Flávio Bolsonaro assume relevância. Sua carreira política começou na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, onde exerceu mandatos de deputado estadual, e prosseguiu no Senado Federal, para o qual foi eleito em 2018. Sua trajetória reúne controvérsias relacionadas ao exercício de cargos públicos, às investigações sobre as rachadinhas e às relações políticas de seu entorno. No caso das rachadinhas, entretanto, as provas que sustentavam a denúncia foram invalidadas, e o processo foi arquivado em 2022.

Em 2026, Flávio passou a ocupar lugar de destaque na disputa pela continuidade política do bolsonarismo, apresentando-se como candidato à Presidência da República. Sua candidatura traz consigo tanto a herança política de Jair Bolsonaro quanto os questionamentos que cercam sua própria trajetória. Em uma investigação noticiada em 2026 sobre o financiamento do filme Dark Horse, produção biográfica sobre Jair Bolsonaro, surgiram suspeitas relativas a repasses financeiros e a possíveis irregularidades. Essas apurações precisam ser tratadas como investigações em curso, e não como prova definitiva de crime.

A presença de Flávio nessa disputa também evidencia como a política brasileira se organiza em torno de heranças, alianças e projetos de continuidade. A alternância de poder não significa necessariamente a superação das práticas anteriores; por vezes, ela se apresenta como a substituição de personagens dentro de uma estrutura que permanece. É nesse movimento que as cores partidárias podem funcionar como fronteiras simbólicas, ocultando aproximações entre grupos que, no discurso, parecem ocupar posições inconciliáveis.

Diante de toda essa trama política, minha atenção se volta aos caminhos partilhados por todos os lados, caminhos que se entrecruzam na história política deste país. E, pelo andar da carruagem, temos visto uma sucessão de disparidades e incoerências entre ação e discurso. O que vale mesmo são os acordos políticos, as continhas que nem sempre fecham, a roubalheira escancarada que revela, me desculpem, o caráter de quem governa.

Passamos a normalizar pequenas contravenções políticas, como as famosas “rachadinhas”, práticas que ocupam todas as instâncias de governo, mas não toleramos as “pedaladas fiscais” quando isso interessa a alguns, na obviedade de um golpe misógino. Do poço fundo da contravenção, onde todos estão encalacrados, acha-se por bem desenterrar os podres de alguns quando a ânsia pelo poder se torna insuportável. Os escândalos são usados como forma de alternância de poder, um jogo partidário que garante a estabilidade de uma galera insípida, localizada no centro da bagunça. E é esse centro que tem dominado o jogo. Desvios de dinheiro público destinado à merenda, corrupção passiva, lavagem de dinheiro e falsidade ideológica eleitoral (caixa dois) são esquecidos quando convém.

Se passarmos o pente-fino, não sobra um. Caminhamos como trôpegos, comemorando uma eleição de bêbados. Sim, passivos à ordem do caos, iludidos pelas falsas promessas do mesmo. Entre a alternância de poder, que mantém o status de uma governabilidade corrupta, do famoso “rouba, mas faz”, e a repetição fatídica da história fascista, cuja eleição exige um salvador extremista e desumano, o povo brasileiro se assoberba no caos lamacento daquilo que nunca muda.

Beira a loucura desejar uma intervenção militar, uma ditadura da ordem, uma esperança, sinceramente, trôpega. No meio dessa loucura, cria-se uma guerra fria entre o bem e o mal. Incrédula, penso: o que essa sociedade tem entendido por bem e mal? São todos assassinos de colarinho branco, porque, toda vez que um cidadão brasileiro morre por fome, por falta de atendimento, por tiros de canhão e carabina, por ausência de políticas públicas, por descaso diante dos discursos de ódio, por misoginia, por preconceito, por discriminação, a responsabilidade recai sobre eles e suas mentiras travestidas de bem e, fatidicamente, sobre nós.

A responsabilização entra em xeque. Afinal, quem é responsável pelo caos? Nós, que não sabemos votar, que somos imputados à ignorância pela falta de acesso ao conhecimento? Eles, por se apropriarem da nossa ignomínia e nos manipularem como vermes sedentos por uma benesse? Nós, por ansiarmos ter tanto poder quanto os que lá estão, por ansiarmos ser opressores no descanso de oprimidos? Quem está mais sujo: nós ou eles?

Sim, não se pode jogar o bebê fora com a água suja, mas o que nos faz acreditar que somos o bebê ou que sabemos separar a água suja do bebê?

Talvez a saída desse caos não esteja na esperança de encontrar um salvador, tampouco na ilusão de que a alternância de poder, por si só, seja capaz de transformar a realidade. Está na construção de uma consciência crítica que nos permita reconhecer as contradições, romper com a naturalização dos privilégios e compreender que nenhuma promessa de ordem, progresso ou bem comum justifica a desumanização. Afinal, a democracia não se sustenta apenas nas urnas, mas na capacidade de uma sociedade de confrontar suas próprias contradições, responsabilizar quem exerce o poder e não se deixar seduzir por discursos que, em nome do bem, perpetuam as condições que nos mantêm atolados no mesmo lamaçal.

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

13 motivos pelos quais não voto em Bolsonaro


Eu não voto em Bolsonaro por uma questão que, para mim, vai muito além de simpatia ou antipatia por uma pessoa. Meu voto é uma escolha de projeto de país.

A história brasileira é marcada por desigualdades profundas, dependência econômica, concentração de riqueza, exploração de recursos naturais e disputas permanentes pela nossa soberania. Ao mesmo tempo, somos uma nação com enormes potencialidades, recursos naturais, capacidade científica, território, população e condições para construir um projeto próprio de desenvolvimento.

É nesse contexto que estão meus 13 motivos.

1. Meu país não é quintal dos Estados Unidos

Defender a soberania brasileira não significa ser contra os Estados Unidos ou contra qualquer outro país. Significa entender que o Brasil precisa ter uma política externa independente e orientada pelos seus próprios interesses.

A história da América Latina é também a história da interferência das grandes potências sobre países periféricos. O imperialismo não desapareceu simplesmente porque o colonialismo formal terminou.

Eu quero um Brasil que dialogue com Estados Unidos, Europa, China, América Latina e o restante do mundo sem se colocar automaticamente na condição de subordinado.

2. Nossos bens e nossas riquezas são nossos

Petróleo, minerais, água, terras, biodiversidade e outros recursos estratégicos não são apenas mercadorias.

São patrimônio econômico, ambiental e geopolítico.

Não aceito a ideia de que o desenvolvimento brasileiro deva significar simplesmente retirar nossas riquezas do território, exportar matéria-prima e deixar que grande parte do valor agregado e dos lucros seja produzido ou capturado fora daqui.

Quero que nossos recursos sejam utilizados para gerar ciência, tecnologia, indústria, empregos, infraestrutura e qualidade de vida para a população brasileira.

3. A Amazônia precisa ser protegida

A Amazônia não é um obstáculo ao desenvolvimento. Ela é uma das maiores riquezas estratégicas do Brasil.

Preservar a floresta significa preservar biodiversidade, água, clima, conhecimento, povos tradicionais e possibilidades econômicas futuras.

Não quero uma Amazônia transformada em território de saque.

Quero uma Amazônia protegida, pesquisada e economicamente valorizada de maneira sustentável, inclusive por meio da ciência, da tecnologia e da bioeconomia.

Destruir a floresta para obter lucro rápido é, na minha visão, uma forma de empobrecimento nacional.

4. Políticas públicas para minorias não são "protecionismo para vagabundo"

Eu acredito que uma sociedade que carrega séculos de desigualdade não pode fingir que todos começaram do mesmo lugar.

O Brasil foi construído sobre séculos de escravidão e exclusão. Mulheres, negros, indígenas, pessoas com deficiência e diversos outros grupos foram historicamente submetidos a formas diferentes de marginalização.

Políticas de inclusão e reparação não são privilégios.

São instrumentos para diminuir desigualdades que não nasceram ontem.

Direitos iguais também exigem condições minimamente justas para que esses direitos possam ser exercidos.

5. A violência não é o caminho para acabar com a violência

Eu não acredito na romantização das armas.

Odeio armas e não acredito que uma sociedade se torne automaticamente mais segura simplesmente porque mais pessoas estão armadas.

Segurança pública exige Estado eficiente, investigação, inteligência, prevenção, combate ao crime organizado, controle das armas ilegais, educação, oportunidades e políticas sociais.

Não quero uma sociedade em que cada cidadão precise imaginar que sua segurança depende de possuir uma arma.

Quero um Estado capaz de proteger seus cidadãos.

6. O feminicídio existe e precisa ser combatido

Durante muito tempo, a violência contra a mulher foi tratada como problema privado.

Não é.

O feminicídio existe e precisa ser reconhecido e combatido pelo Estado e pela sociedade.

Uma mulher não pode ser assassinada por ser mulher e depois ouvirmos que isso é simplesmente uma "briga de casal".

Defender políticas de prevenção à violência contra a mulher não é atacar a família. É defender a vida, a dignidade e o direito de mulheres viverem sem medo.

7. Religião e política ocupam lugares diferentes

Eu respeito a fé de cada pessoa.

Justamente por isso, não quero que uma religião determine os direitos de todos.

Um país plural precisa construir políticas públicas pensando no conjunto da população, e não exclusivamente na moral de determinado grupo religioso.

A religião pode participar do debate público porque seus fiéis são cidadãos. Mas nenhuma religião deve ser transformada em autoridade política absoluta.

A política precisa servir ao coletivo.

8. O Estado é laico

Estado laico não é Estado contra a religião.

É Estado que não pertence a nenhuma religião.

Católicos, evangélicos, espíritas, judeus, muçulmanos, praticantes de religiões de matriz africana, ateus, agnósticos e pessoas que simplesmente não seguem religião alguma precisam ter exatamente a mesma cidadania.

A liberdade religiosa só é verdadeiramente possível quando nenhuma religião controla o Estado.

Por isso, defendo a separação entre Estado e religião como princípio democrático.

9. Direitos trabalhistas são direitos, não privilégios

Nenhum direito trabalhista importante caiu do céu.

Jornada de trabalho, descanso, férias, salário mínimo, previdência e proteção ao trabalhador foram conquistas históricas construídas por trabalhadores que lutaram contra relações de exploração.

Não aceito a ideia de que o trabalhador precisa necessariamente abrir mão de direitos para que o país se desenvolva.

Quero o contrário: uma economia mais produtiva, tecnológica e eficiente, capaz de produzir mais sem exigir que as pessoas simplesmente trabalhem até a exaustão.

Por isso, apoio o fim da escala 6×1.

Trabalho deve fazer parte da vida. Não deve consumir a vida inteira.

10. Não ignoro a história do imperialismo

Não acredito numa explicação simplista segundo a qual Estados Unidos e Europa seriam ricos _apenas_ porque exploraram outros países.

A industrialização, a ciência, as instituições e diversos outros fatores foram fundamentais para a formação dessas economias.

Mas também não aceito apagar da história o colonialismo, a escravidão, a extração de recursos, a conquista territorial e as relações econômicas profundamente desiguais que contribuíram para a acumulação de riqueza das potências.

O imperialismo foi uma realidade histórica.

E suas consequências não desapareceram magicamente com o fim das colônias formais.

Por isso, quando penso no Brasil, penso também na necessidade de superar relações de dependência e construir maior autonomia econômica, científica, tecnológica e política.

11. O Brasil é uma nação rica e promissora

Eu não aceito a ideia de que o Brasil esteja condenado a ser eternamente um exportador de produtos primários e consumidor de tecnologia produzida por outros países.

Temos recursos naturais, universidades, pesquisadores, trabalhadores, indústria, agricultura, energia, biodiversidade e um enorme mercado interno.

Precisamos transformar essas potencialidades em desenvolvimento.

Isso significa investir em educação, ciência, tecnologia, infraestrutura, indústria, inovação e produção nacional.

Não quero apenas vender minério.

Quero produzir tecnologia a partir dele.

Não quero apenas exportar produtos agrícolas.

Quero desenvolver ciência e indústria associadas à nossa agricultura.

Não quero apenas possuir biodiversidade.

Quero transformar conhecimento sobre ela em pesquisa, medicamentos, tecnologia e riqueza preservando a floresta.

Quero um Brasil que agregue valor ao que produz.

12. Educação e saúde não podem ser tratadas apenas como mercadorias

Educação e saúde são necessidades humanas fundamentais.

Uma criança não deveria receber educação de qualidade apenas porque sua família pode pagar.

Uma pessoa não deveria ter acesso à saúde apenas porque possui dinheiro.

Mercados podem participar da prestação de determinados serviços, mas eu não aceito que o direito à saúde e à educação seja subordinado exclusivamente à lógica do lucro.

Defendo o fortalecimento dos serviços públicos e universais.

O Estado deve garantir que ninguém fique sem atendimento porque não pode pagar.

Educação e saúde não são apenas despesas.

São investimentos na própria capacidade de desenvolvimento de uma sociedade.

13. A hipocrisia política me revolta

Por fim, existe uma razão profundamente pessoal.

Tenho dificuldade de aceitar discursos que falam em moralidade, família, patriotismo, Deus ou bons costumes enquanto, na prática, defendem políticas ou comportamentos que considero incompatíveis com a dignidade humana, com os direitos sociais, com a democracia ou com o respeito ao próximo.

Não me interessa apenas o discurso.

Quero coerência entre aquilo que uma pessoa diz defender e aquilo que efetivamente faz.

Não quero políticos que utilizem religião como instrumento de poder, patriotismo como instrumento de submissão, moralidade como instrumento de julgamento dos outros ou liberdade como justificativa para retirar direitos de quem pensa diferente.

Quero humanidade.

Quero democracia.

Quero justiça social.

Quero soberania.

Quero desenvolvimento.

Quero um país que seja capaz de olhar para sua própria história sem vergonha, aprender com seus erros e construir seu futuro sem se colocar de joelhos diante de nenhuma potência.

Por isso, não voto em Bolsonaro

Meus 13 motivos não se resumem a gostar ou não gostar de Bolsonaro.

Eles representam uma visão de Brasil.

Um Brasil soberano, mas aberto ao mundo.

Patriótico sem ser nacionalista xenófobo.

Desenvolvido sem destruir a natureza.

Capitalista, se assim for sua escolha econômica, mas com direitos sociais e dignidade humana.

Religioso para quem tem fé, mas laico enquanto Estado.

Seguro sem transformar armas em símbolo de cidadania.

Rico em recursos, mas também rico em conhecimento.

Com crescimento econômico, mas sem transformar trabalhadores em instrumentos descartáveis.

Com liberdade, mas também com responsabilidade.

Com democracia, direitos humanos, educação, saúde, ciência, cultura e justiça social.

Eu não quero um Brasil subordinado.

Não quero um Brasil que venda suas riquezas e compre de volta produtos de alto valor agregado.

Não quero um Brasil que trate pobreza como fracasso individual.

Não quero um Brasil que confunda fé com governo.

Não quero um Brasil que considere direitos trabalhistas obstáculos ao desenvolvimento.

Não quero um Brasil que trate a destruição da Amazônia como progresso.

E, principalmente, não quero um Brasil em que o poder político seja usado para dividir, humilhar e desumanizar pessoas.

Meu voto é, portanto, menos um voto contra uma pessoa e mais um voto a favor de um projeto de país.

Um projeto baseado em soberania, desenvolvimento, democracia, direitos sociais, justiça, ciência, preservação ambiental e dignidade humana.



LEMBRAR O ONTEM PARA NÃO REPETIR O AMANHÃ

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Os astros me ensinam meu lugar



Por Dâmaris A C Melgaço

Eu gosto de contemplar a noite e de olhar para o céu. Ao olhar para cima, contemplo também a minha insignificância humana diante do cosmo. Pessoas que não desenvolveram a capacidade de olhar para cima e contemplar a noite geralmente acreditam em sua grandiosidade, que lhes outorga o direito de humilhar e submeter os seus semelhantes à sua engenhosa sabedoria. Elas fixam o olhar na ilusão diurna que a luz do sol propicia. Ao olharem para cima, acreditam ver, mas não veem. O que elas contemplam é apenas a ilusão de um céu colorido e fechado, com gaivotas voando e nuvens cobrindo o horizonte, tal qual explicita a canção "Aquarela", de Toquinho, Vinicius de Moraes e Guido Morais (1983).

O sol — esse astro-rei — cantarola a vida fake de quem não se permite ampliar, mas que descolorirá. E é descolorindo, sob essa dimensão consciente que o descoloramento do sol proporciona, em sua posição habitual, enquanto sua aliada, a mãe Terra, rotaciona, que a ilusão humana se põe junto a ele. É na escuridão que a vida se revela autêntica.

Por isso, eu gosto de contemplar a noite e olhar para o céu. Nele contemplo a imensidão do universo; os astros e os planetas me engolem e me chamam a assumir o meu lugar, tal qual a figura do "Pequeno Príncipe", de Antoine de Saint-Exupéry (1943). O Pequeno Príncipe nos coloca no exato lugar que temos no universo. Uma alegoria que desnuda a arrogância e a ínfima existência humana.

Quando em contato com a luz do sol, o ser humano é impedido de assumir o seu lugar e cria a ilusão de ser grandão, de ser o portador da luz que ilumina as trevas; porque detentor do conhecimento, acredita ser também detentor do poder de mudar a mente daqueles que são ínfimos, débeis, ignorantes, alienados e fracassados. E que honra é encontrar-se com essa força e sorver de tanta sabedoria, não é? Sim, diz a ignomínia do saber.

No entanto, quando mergulhado no escuro solar, o mesmo homem se reduz à sua pequenez, ao seu pequeno planeta e, ali, assume a singularidade de ser cativo, não de si, mas do outro.

Diante da imensidão do universo, o ser humano desce ao único lugar que realmente lhe aguarda: a espera do seu fim. É ali, nesse lugar, que ele pode entender-se finalmente finito, uma poeira cósmica que agora é e — logo ali — já não é.

"Então, tu também vens do céu! De que planeta és tu?" (Saint-Exupéry, 1943/2009, p. 19). Dito isto, reconhecemos que nossa origem é poeira cósmica. Há tanto a ser explorado, há tanto desconhecido, que não sobra tempo para sermos arrogantes.

Entretanto, é notório que, embora providos da experiência lunar, nos acotovelamos com nossa vaidade e luxúria de "O Príncipe", de Nicolau Maquiavel (1532).

Saint-Exupéry (1943/2009), ao afirmar que, quando estamos tristes demais, gostamos do pôr do sol, explicita a tristeza de quem compreendeu o seu lugar, mas se depara com a limitação das cores ilusórias. Sim, o pôr do sol encerra o ciclo da ilusão humana.

De certa forma, o sol aparente no satélite Lua permite que busquemos o essencial nas estrelas. É ali que a solidariedade da paz com outros humanos ocorre no encontro com a vida e a morte, que nunca são finitas, porque se perpetuam nas gerações que aprenderam a apreciar o sol, mas, sobretudo, a apreciar a Lua.

Vale a pena ler ou reler:

MAQUIAVEL, Nicolau. O príncipe. São Paulo: Martins Fontes, 2004. Disponível em:

SAINT-EXUPÉRY, Antoine de. O pequeno príncipe. Tradução de Dom Marcos Barbosa. Rio de Janeiro: Agir, 2009. 
Disponível em: 

Vale a pena escutar de novo:

MORAES, Vinicius de; TOQUINHO; MORAES, Guido. Aquarela. Intérprete: Toquinho. In: TOQUINHO. Aquarela. São Paulo: Ariola, 1983. 1 faixa.

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Análise do Decreto 12.686/25: aspectos positivos e negativos


O Decreto nº 12.686 foi promulgado no dia 20/10/2025 e institui a Política Nacional de Educação Especial Inclusiva e a Rede Nacional de Educação Especial Inclusiva, revogando o decreto 7.611 de 17/11/2011. Desde a data de sua publicação muitas controvérsias se levantaram contra o mesmo, principalmente no que tange as instituições como APAE's e afins, cujo funcionamento é sem fins lucrativos. Essa questão é antiga e esbarra na questão primeira, cuja razão aponta as dificuldades estruturais do setor público na garantia da inclusão total. Até o presente momento, há dois projetos de decreto para a revogação do decreto nº 12.686. São eles, o Projeto de Decreto Legislativo (PDL) nº 845, de 2025 do senador Flávio Arns e o Projeto de Decreto Legislativo (PDL) 846/2025 do deputado federal Diego Garcia. 

Desde a criação do Centro Nacional de Educação Especial (CENESP) em 1973, atual Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Empreendedorismo e Inclusão (SECADI), houve preocupação com a integração dos alunos com deficiência no sistema regular de ensino. Posteriormente, impulsionado pelas agências de fomento internacionais, com a determinação das Nações Unidas para o  Ano Internacional da Pessoa com Deficiência (AIPD), entre 1983-1992 e com gradual progressão para o movimento da educação inclusiva, essa preocupação tornou-se maior para a inclusão total das pessoas com deficiência em ambiente regular comum e para a diminuição progressiva das organizações sem fins lucrativos. 

No entanto, essa prerrogativa nunca foi totalmente alcançada, inclusive com aumento dos movimentos privatistas que descartam a inclusão, retornando-a ao lugar da segregação nas instituições especializadas e sem fins lucrativos. Fato observado na tentativa do PL Decreto 10.502, de 30 de setembro de 2020 no governo de Jair Messias Bolsonaro. Portanto, as alianças com o setor privado e com os incentivos financeiros de agências como o Banco Itaú, que se apropriam das agendas culturais de esquerda, tem se fortalecido e contraditoriamente à ideologia marxista fomentado a agenda desses interesses, tanto para a saúde como para a educação (Catini, 2021).

Assim sendo, por interesses econômicos, observa-se que historicamente todas as principais legislações brasileiras mantiveram as parcerias com a escolarização ofertada por Escolas de Educação Especial, na Modalidade de Educação Básica. Logo, os defensores dessas instituições alegam que o presente decreto traz prejuízos aos direitos pré-estabelecidos no Decreto n. 7.611/2011, cujo teor está amparado pela LDBEN nº 9394/96. Veja,
A primeira constatação desse prejuízo decorre justamente da revogação do Decreto n. 7.611/2011, que em seu art. 8º, VII previa como diretriz do Poder Público no dever com a educação dos estudantes público alvo da educação especial o “apoio técnico e financeiro pelo Poder Público às instituições privadas sem fins lucrativos, especializada e com atuação exclusiva em educação especial”. 
Ressalta-se que o decreto não dissolve as instituições especializados, mas reafirma a preferência da rede pública no oferecimento da vaga regular e de AEE e, somente em excepcionalidade às outras instituições. Também reafirma a preferência para os investimentos educacionais ao setor público no amparo da formação continuada de qualidade aos docentes e garantia de recursos materiais de tecnologias assistidas e adaptativas  ao público da educação especial (PEE).
Art. 9º O AEE na educação básica poderá, excepcionalmente, ser realizado em Centro de Atendimento Educacional Especializado da rede pública de ensino ou de instituições sem fins lucrativos, conveniadas com a Secretaria de Educação ou com órgão equivalente dos Estados, do Distrito Federal ou dos Municípios.
Parágrafo único. Os Centros de Atendimento Educacional Especializado privados, sem fins lucrativos, conveniados, deverão atender aos requisitos estabelecidos pelo Conselho de Educação do respectivo sistema de ensino, para seu credenciamento, sua autorização de funcionamento e sua organização de AEE para a educação básica.
Portanto, deve-se observar que a atual legislação apresenta as seguintes afirmativas e não destitui as instituições especializadas. No entanto, ela retifica a preferencialidade da educação básica comum e a oferta do AEE na escola regular para a pessoa com deficiência, bem como o investimento prioritário das verbas públicas nas instituições da rede pública. Ela afirma:
§ 3º A garantia do sistema educacional inclusivo ocorre por meio da organização do sistema educacional geral, de forma a assegurar que os estudantes que são o público da educação especial estejam incluídos em classes e escolas comuns, com o apoio necessário à sua participação, permanência e aprendizagem.
VII - oferta de Atendimento Educacional Especializado - AEE, preferencialmente nas escolas comuns da rede regular dos sistemas de ensino.
II - universalizar a matrícula na educação básica para o público da educação especial, dos quatro aos dezessete anos de idade, em classes comuns da rede regular de ensino. 
§ 1º A modalidade da educação especial será oferecida de maneira transversal a todos os níveis, etapas e modalidades, com vistas a assegurar recursos e serviços educacionais para apoiar, complementar e suplementar o processo de escolarização. 
Vivian Ribeiro (2020) e Dâmaris Melgaço (2024) em suas pesquisas no sudeste e sudoeste mineiro através do estudo de caso (campo de pesquisa) verificaram como o processo educacional ocorre na práxis educativa da pessoa com deficiência e concluíram que na prática escolar o trabalho pedagógico baseia-se na emissão de laudos e diagnósticos médicos o que dificulta o acesso ao AEE e, principalmente, ao professor de apoio (ACTLA). Esse recorte, adiciona-se a outros estudos e pesquisas de outros estados consubstanciando discrepâncias relativas ao padrão nacional, ferindo as legislações nacionais, como a Lei Brasileira de Inclusão nº 13.146/2015 e a Lei Berenice Piana nº 12.764/2012, Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista, entre outras (Fontenele et.al., 2023). Desta maneira, o decreto nº 12.686/25 reafirma,
Art. 5º O Atendimento Educacional Especializado - AEE é atividade pedagógica de caráter complementar à escolarização de pessoas com deficiência e transtorno do espectro autista, e suplementar à escolarização de pessoas com altas habilidades ou superdotação, de acordo com o disposto nos art. 27 e art. 28 da Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015.
§ 2º A oferta do profissional de apoio escolar independerá de resultado de diagnóstico, laudo, relatório ou qualquer documento emitido por profissional de saúde.
O recente decreto nº 12.686/25 da atual gestão de Lula busca reafirmar essas legislações, inclusive garantindo a autonomia de atuação da equipe pedagógica na escola para o encaminhamento das crianças com deficiência e dificuldades de aprendizagem para o AEE e também para a solicitação de professor de apoio especializado através do estudo de caso essencialmente necessário ao Plano de Atendimento Educacional Especializado (PAEE) e ao Plano Individual de Desenvolvimento (PDI). O decreto nº 12.686/25 explica,
§ 7º A garantia da oferta do AEE ao estudante não será condicionada à exigência de diagnóstico, laudo, relatório ou qualquer outro documento emitido por profissional de saúde.
Art. 12. O PAEE é um documento obrigatório e individualizado de natureza pedagógica, com atualização contínua, que deriva do estudo de caso.

§ 4º Para realização do estudo de caso, quando necessário, será estabelecido diálogo com profissionais que compõem a rede de proteção social, como os da saúde, da assistência social e dos órgãos de proteção à criança e ao adolescente. 
Ao afirmar como objetivo do AEE (artigo 6º): "VII - fomentar e integrar as ações intersetoriais, notadamente entre as áreas que compõem a rede de proteção social", observa-se a preservação da liberdade nas ações de articulação e colaboração entre diferentes setores e políticas públicas (como saúde, educação, assistência social, trabalho, habitação, etc.) para resolver problemas complexos de forma mais eficaz do que cada setor faria isoladamente. Também o decreto 12.686 reitera e explicita como um objetivo da Rede Nacional de Educação Especial Inclusiva no artigo 17: "II - efetivar a articulação intersetorial para promover atenção integral aos estudantes que são o público da educação especial". Ou seja, está claro que não há o descarte das equipes multidisciplinares dos vários setores públicos no trabalho articulado junto as pessoas com deficiência. Abaixo, quadro resumo com as principais problemáticas do Decreto 12.686/25:

ASPECTOS POSITIVOS DA LEGISLAÇÃO

ASPECTOS NEGATIVOS

 

1. Autonomia pedagógica no encaminhamento ao AEE.

1. Complicadores práticos.

2. O laudo é apenas complementar e não uma exigência.

2. Ausência de formação específica dos docentes.

3. Combate ao capacitismo.

 

3. Presença de atendimento generalista.

4. Retificação das principais leis nacionais da inclusão.

 

4. Prejuízos acumulados pela ausência de mediações no desenvolvimento cultural desde a primeira infância.

 

5. Retificação da garantia de matrícula da pessoa com deficiência na escola comum e no AEE (preferencialmente).

 

5. Falta de acesso aos materiais de produção humana acessíveis à todas as especificidades.

 

6. Reiteração do direito da pessoa com deficiência ao currículo básico comum.

 

6. Ausência de equipes da saúde e sociais como centros públicos de referência acessíveis às necessidades psicofisiológicas (não pedagógicas) dos alunos integrados e participativos na escola para complementar o desenvolvimento integral da pessoa com deficiência.

 

7. Compromisso com a Educação Especial e maior investimento público na formação profissional técnica.

 

7. O caráter da escolarização é pedagógico, NÃO DIAGNÓSTICO, mas a pessoa com deficiência é um ser integral que também necessita do atendimento de profissionais da saúde pública. Para muitos, esses atendimentos são essenciais.

 

8. Exigência de no mínimo 80 horas em formação técnica para ser profissional de apoio do aluno com deficiência.

 

8. O movimento para a privatização da educação e sua lógica in/excludente, meritocrática e mercadológica é um entrave grave.

 

9. Reiteração da necessidade de integração entre União, Estados e municípios.

9. Ausência de explicações mais específicas sobre a regulamentação e fiscalização dessas novas propositivas.

 

10. Padronização nacional do AEE.

 

10. O sistema capitalista e seus modos de produção.

    
11. Universalização do método: estudo de caso.

 

 

12. O AEE como parte indispensável na participação e construção do PPP escolar.

 

 

 

Muita coisa, neh?

Obs.: COM O MOVIMENTO DE CUNHO NEOLIBERAL PARA A REVOGAÇÃO DO DECRETO, AINDA TEM ÁGUA ROLANDO DEBAIXO DA PONTE 🤷‍♀️ AGUARDEMOS


REFERÊNCIAS

BRASIL. Decreto nº 12.686, de 20 de outubro de 2025. Institui a Política Nacional de Educação Especial Inclusiva e a Rede Nacional de Educação Especial Inclusiva. Diário Oficial da União. Edição 201, Seção 1, p. 4. Órgão: Atos do Poder Executivo. Publicado em 21/10/2025.

CATINI, Carolina de Roig. A educação bancária, "com um itaú de vantagens". Germinal: marxismo e educação em debate. Salvador, BA. v. 13, n. 1, p. 90-118, abr. 2021. Disponível em: https://repositorio.unicamp.br/VisualizadorPdf?codigoArquivo=577618&tipoMidia=0. Acesso em: 12 nov. 2025. 

FONTENELE, Luciana Queiroz; BESSA, Leticia Leite; LAVOR FILHO, Tadeu Lucas de; SOUZA FILHO, José Alves; MIRANDA, Luciana Lobo. Laudo e Diagnóstico como Dispositivos de (Ex)Inclusão Escolar: Uma Revisão Sistemática // Report and Diagnosis as Devices of School (Ex)inclusion: A Systematic Review. Revista de Psicologia, [S. l.], v. 14, p. e023009, 2023. DOI: 10.36517/revpsiufc.14.2023.e023009. Disponível em: https://periodicos.ufc.br/psicologiaufc/article/view/81699. Acesso em: 12 nov. 2025.

MELGAÇO, D. A. Concepções de deficiência presentes na práxis educativa dos educadores de uma "escola inclusiva" no sudoeste mineiro. 2024. Dissertação (Mestrado em Educação) - Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2024. Disponível em: https://www.repositorio.unicamp.br/acervo/detalhe/1411013 Acesso em: 15 fev. 2025

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Ser esquizofrênico num mundo de "sãos"

Você sabe que é a luta antimanicomial?

A esquizofrenia é uma condição humana regida por fatores hereditários, ambientais e múltiplos. Segundo a Cid 11, ela é caracterizada por "distorções fundamentais e características do pensamento e da percepção, e por afetos inapropriados ou embotados".

Somente quem convive ou já conviveu com pessoas que apresentam essas condições sabem melhor expressar os graus de sofrimentos vividos pela própria pessoa e seus familiares ou rede de apoio. 

Numa sociedade caótica, essas condições insalubres se intensificam. As cobranças e exigências por uma pseudo-normalidade agravam a situação numa cadeia aprisionante. Se, para os cidadãos "normais", as pressões da vida estão insuportáveis e adoecedoras, imagina para os que são munidos de uma hipersensibilidade afetiva?

Ao tentarmos resolver nossas internalidades junto as externalidades criamos um campo indizível e muito subjetivo, pois na relação do eu existo com o mundo do existir - na socialização das ações - cada humano segue uma cartilha própria dos afetos. 

Nessa relação entre eu-outro-outros - campo interacional - a forma como sentimos e experimentamos o mundo constrói a nossa relação íntima com ele que pode ser positiva ou negativa (conceito). As sensações experimentadas desenvolvem nossos sentimentos e emoções, bem como a forma como lidaremos com eles desde a mais tenra idade. Penso que é nesse campo que se desenha a esquizofrenia que conhecemos de forma conceitual.

Existe um espaço próprio do desenvolvimento infantil que Lev Vygotsky (1896-1934) conceituou como pensamento sincrético. Esse espaço do desenvolvimento cultural ocorre entre os três e sete anos - não estático - e é muito rico na formação dos conceitos (linguagem e compreensão do mundo cultural). É interessante que nesse período dinâmico, de acordo com Henri Wallon (1879-1962), pode-se pontuar objetivamente quatro características acerca deste tipo de pensamento infantil: fabulação, tautologia, elisão e contradição. Segundo ele, na fabulação a criança tende a inventar histórias, na tautologia há a repetição das palavras na intenção de compreendê-las, na elisão parece não haver muito sentido nas palavras e na contradição a conservação do conceito entra em prejuízo. 

Note-se que como característica fundante explicitada na Cid 11 e no DSM 5 a esquizofrenia possui explicações como, distorções do pensamento e da percepção que implicam na regulação da emoção e sentimento. Portanto, tem-se a hipótese de que a pessoa com esquizofrenia é uma criança que se perdeu no campo desenvolvimental e que teve esse desenvolvimento prejudicado por suas interações objetais, de tal forma que o trauma experienciado no campo afetivo e sem as mediações corretas implicou num retorno cíclico a resolução do problema (campo individual) que nunca se resolve.

Dessa maneira, explica-se a idade da manifestação da "doença", entre 15-25 anos, quando a vida social começa a exigir maior responsabilidade sobre a ação e as pressões externas criam uma prensa emocional instaurando a crise existencial (por todos experienciado, em menor ou maior grau), vulgo adolescência freudiana. A criança que não cresce rompe com a estrutura e mantém o pensamento sincrético na tentativa de resolução interna. É um momento de extrema solidão e angústia e sem as mediações necessárias o cérebro em atividade extrema gera a pane no sistema neuronal (a tal ruptura).

A confabulação entre o eu mesmo se dão como tentativas de resolução da dor in/externa, a tautologia como fonte de reafirmação do conceito se manifesta veementemente, as palavras começam a não fazer sentido para o mundo social, a conservação do conceito entra em prejuízo acelerado e a contradição fica evidente como sintomas da esquizofrenia. O que na criança era um espaço de desenvolvimento, na criança em adultização torna-se um espaço inadequado e inapropriado que sob a força hegemônica do olhar médico-clínico necessita urgentemente da "medicalização".

Pode-se afirmar que houve uma ruptura no desenvolvimento cultural, com prejuízos à vida cultural daquele ser humano específico. A esquizofrenia, portanto, é uma condição humana que carece de intervenções humanas como a compreensão e o acolhimento da criança que sofre presa em si mesma, porém o que se verifica na sociedade são ações preconceituosas e normalizadoras que não admitem a existência dos seres em sofrimento. Para tanto, subjugam as pessoas com esquizofrenia a tratamentos desumanos, com medidas preventivas e curativas opressoras que impõem exclusão e segregação, como verificadas ao longo do tempo histórico, tendo no Brasil como exemplo e marco a história do hospital psiquiátrico de Barbacena-MG.

A luta antimanicomial é uma premissa indispensável para tratamentos mais humanizados que considerem a esquizofrenia uma condição de existência e não uma aberração que deve ser apagada. 

REFERÊNCIAS:

WALLON, H. As origens do caráter na criança. São Paulo: Nova Alexandria, 1995. 
GALVÃO, I. Henri Wallon: uma concepção dialética do desenvolvimento infantil. Rio de Janeiro: Vozes, 1995. 
VIGOTSKI, L. S. Pensamento e linguagem. 4ª Ed. São Paulo: Martins Fontes, 2015.




segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Qual é o preço? Você já parou pra pensar nessa questão do valor das coisas?



De vez em quando eu paro para pensar sobre e, hoje, é um desses momentos, propícios à reflexão. Observo como nós "civilizados" estabelecemos a sociedade sob a marca do valor. Penso que enquanto seres humanos essa é uma questão material que perpassa as relações basais - primordiais à sobrevivência coletiva. 

Desde cedo aprendemos a valorar as coisas. Nessas relações objetais enquanto sociedade criamos a pirâmide das valorações. Tal qual as pirâmides de Maslow, mas penso eu que essa questão é mais profunda porque implica no ato da vida coletiva e promove a estática da vida humana. 

A equilibração da vida humana, portanto; não se movimenta de forma simétrica à necessidade, ela se contrabalança entre as relações de valores sociais, valores esses que são construídos em sociedade. Por isso, a pergunta.

Com a contrabalança da mercadoria observa-se a maximização do poder monetário, no qual perdem-se as expectativas de valor real para o valor ilusório. Comumente observa-se o reducionismo do valor das relações objetais, dentre elas as afetivas, a um valor numérico. Por exemplo,

- Você vale o número de aprovações, 

- Você vale o número de amigos,

- Você vale o número de amores,

- Você vale o número de viagens,

Então, consuma monetariamente o que te fará ser àquele número.

Desta forma, a mercadoria tem dominado todas as nossas relações objetais. Como disse Marx acerca da alienação do trabalho, como produto final temos um organismo vivo que se movimenta descolado da sua relação produtiva e, por conseguinte, apartado de sua consciência de valor, condicionado ao consumo daquilo que ele mesmo produz, porém sem sentir-se parte dessa produção.

Qual é o preço desse processo? Ausência de pensamento autônomo. A maioria de nós é um consumidor, ou seja, recebemos verdades prontas e inquestionáveis, já valoradas por outros de nós. Na biologia, a natureza obedece uma cadeia de consumo, o ser humano dentre elas ocupa desde os níveis primários até mesmo terciários. Podemos afirmar que somos consumidores por natureza. 

Consumir é uma verdade inquestionável, mas a nossa fome não é somente de comida, entende?

A música "Comida" da banda Titãs expressa na arte a nossa fome consumidora, cujo fim é contraditório à nossa expectativa de produção. Veja,

Bebida é água
Comida é pasto
Você tem sede de quê?
Você tem fome de quê?

A gente não quer só comida
A gente quer comida, diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída para qualquer parte
A gente não quer só comida
A gente quer bebida, diversão, balé

A gente não quer só comida
A gente quer a vida como a vida quer
A gente não quer só comer
A gente quer comer e quer fazer amor
A gente não quer só comer
A gente quer prazer pra aliviar a dor

A gente não quer só dinheiro
A gente quer dinheiro e felicidade
A gente não quer só dinheiro
A gente quer inteiro e não pela metade

Desejo, necessidade, vontade
Necessidade, desejo, é
Necessidade, vontade, é
Necessidade

Percebe como cada palavra revela a confusão de valor?  A alienação dos sentidos, da vida coletiva, da necessidade real?

Cada um busca o sentido dentro de um esquema pré-desenhado, supostamente produtivo, mas questiono, que produção é essa que recai no consumo?

À luz da biologia, nós somos consumidores naturais que serão em algum ponto consumidos pela natureza, mas no nosso ato de "produção" criamos coisas que fatalmente serão consumidas por nós e por nossa prole, talvez na ânsia de não sermos consumidos pela natureza. Doce ilusão que nos consome. 

O problema reside em que nossas criações (atos produtivos) não podem ser consumidas pela natureza. Automaticamente, travamos essa breve luta contra a finitude da vida que nunca se assegura nas nossas pífias produções. 

Nesse ato filosófico, deixo a você leitor a pergunta inicial, que inutilmente eu tento responder. 

Então, que a vida seja um brinde à morte e à vida que sempre renasce. Que o ódio seja derradeiro ao amor e vice-versa. Que a paz encontre em nós o sabor. Que a justiça seja a balança da estática humana. Que a verdade seja pura e simples como o sorriso do velho e da criança. Que os ciclos sejam renováveis em mim e em você. Que sejamos leais aos sentidos mais nobres escondidos nos rastros humanos que deixamos às futuras gerações. E que a breve vida seja um lugar de amar em conforto, junto dos que amam a vida e a morte, sem medo. Te espero.


segunda-feira, 9 de junho de 2025

Do palco pra vida, da vida ao palco: o limite da arte na promoção do pensamento.



Dizem que a vida imita a arte, mas acredito que a arte imita a vida, pois sendo a arte uma produção propriamente humana, ela é, com certeza, transpassada pela cultura social. Seria o mesmo que questionar o que vem primeiro, a machadinha ou a ideia da machadinha? Se como premissa básica a materialidade determina a necessidade produtiva que impulsiona a criação da ferramenta, também a arte se caracteriza pelo mesmo princípio, a necessidade de expor a vida em tela na expressão da arte para então refleti-la a partir dela mesma. 

Raymond Williams [1921-1988]  expõe que pensar a cultura social é trabalhar com a ambiguidade, porque opera sobre a vida concreta, sobre classes, indústria, política, família, crime, mas também no campo imaterial, religião, educação e conhecimento. Destarte, a partir de uma visão antropológica do século XIX, verifica-se uma amplitude de significados dados a cultura, desde a idealização da formação humana via religião e nacionalismo até o idealismo moderno da vida vivida nos processos sociais, bem como a ordenação política e econômica. Desta maneira, a cultura tem transitado entre o pensamento da globalidade e da parcimônia. 

Podemos distinguir uma gama de significados, desde (I) um estado mental desenvolvido - como em "pessoa de cultura", "pessoa culta", passando por (II) os processos desse desenvolvimento - como em "interesses culturais", "atividades culturais", até (III) os meios desses processos - como em cultura considerada "as artes" e o "trabalho intelectual dos homens" (Williams, 1992, p. 11). 

Nos dias atuais permanecem a terceira posição, acima discriminada, tanto no campo da sociologia, quanto da antropologia., entendendo cultura como um modo de vida global, tanto de um povo, como de um grupo. Segundo Williams (1992), a teoria de base e estrutura de Plekhanov (1953) defende que os fatos estruturais de base social são refletidos no concreto, nas obras artísticas, podendo ou não serem identificados. Essa teoria pode ser melhor compreendida a partir de Lukács (1950). Para esse último autor a ideia de "reflexo" expõe o fato de que as obras de arte incorporam diretamente a materialidade social pré-existente, mas é substituída de forma gradual pela ideia de mediação - "... modo indireto de relação entre a experiência e a sua composição" (p. 23). "A forma desse modo indireto é interpretada diversamente nos diferentes usos do conceito" (p. 24). 

Williams (1992) toma como exemplo o romance de Kafka, intitulado "O Processo", para expor sua leitura sob diferentes perspectivas: "1) mediação por projeção; 2) mediação pela descoberta de um 'correlato objetivo' e 3) mediação como função dos processos sociais básicos de consciência". Na primeira, o fenômeno aparece como projeção da realidade concreta, porém de forma conceitual indireta. Na segunda, ele aparece da personificação conceitual objetiva da realidade e na terceira, ele aparece de forma cristalizada, como se fosse uma verdade conceitual inquestionável e natural, no puro sentido da realidade alienada do autor e sua própria realidade social.

Para além destas questões, Williams (1992) aborda outra questão considerada por ele como de difícil discussão, o conceito de ideologia, porque divide-se dialeticamente entre a descrição de crenças formais e conscientes de uma classe ou grupo social e/ou a visão geral de mundo consciente e inconsciente de uma classe ou grupo social. Desta maneira, este conceito implica em saber sintetizar e diferenciar aquilo que representa a realidade concreta da vida social - expressão humana consciente e aquilo que é expressão de ficção, teatro, poesia ou lirismo. De qualquer jeito, trata-se da produção e/ou reprodução do pensamento humano na forma do conceito significado e resignificado. Trata-se, portanto, de uma linha tênue entre o aprovável e o reprovável.

A partir dessas discussões breves, questiona-se o limite da arte na promoção e/ou reprodução do pensamento social via cultura. Recentemente, o humorista Leo Lins recebeu uma sentença judicial que determinou sua prisão por oito anos e três meses de prisão, em regime fechado, devido a propagação de conceitos antiéticos e imorais em seu show de stand-up comedy: 2022, divulgado no canal You Tube. 

As mídias sociais divulgaram comentários de pessoas influentes no campo artístico, entre outras áreas, contra a decisão do judiciário e também a favor. Vários foram os argumentos pró-decisão, bem como contrários à decisão judicial, entre eles, a garantia do direito à liberdade de expressão artística e o direito da defesa do direito das pessoas ofendidas pelo humorista em suas atuações de stand-up comedy. 

Fato é que o humorista em questão tem por costume desenvolver piadas sob temáticas raciais, físicas, sexuais e psicológicas, envolvendo questões humanas, cuja luta é assegurada pela lei vigente do país, disseminando via arte conteúdo dúbio e de desinformação para causas importantes referentes a pedofilia, ao feminismo, a lgbtfobia, ao racismo, a gordofobia, etc. 

Ao refletirmos sobre o papel fundante da arte como reprodutora e mediadora da materialidade concreta da vida humana, considerando a liberdade da expressão humana abordadas anteriormente, temos um entrave entre o limite da arte e sua influência sobre a vida humana. Williams (1989) apud Cevasco (2001) expõe que a cultura possui para si o sentido da vida cotidiana e a incorporação do significado geral da vida comum, reproduzida pela arte. Dessa maneira, pode-se refletir que as piadas de Leo Lins são tanto as reproduções da vida cotidiana brasileira - comum a todos, como a sua incorporação pela individualidade do ator no humor reproduzido. Por inferência, percebe-se as raízes conceituais estruturais na forma do preconceito reproduzidas na arte de Léo Lins, denotando a cristalização de pseudoverdades às quais são reiteradas no palco da vida e nos aplausos que a evocam. 

Melgaço, Santos e Toledo (2024, p. 13) expõem que:

Na perspectiva de Williams (1989) apud Cevasco (2001) questionar sobre a cultura é o mesmo que questionar coletivamente a nossa própria comunhão significativa (propositiva comunitária) e ao mesmo tempo questionar os significados individuais de caráter profundo, já  que  não  se  pode  entender  a  cultura  como  um  processo  individualizante,  pois  a  cultura pertence a todos não importando o tipo de sociedade ou as maneiras de pensar.

Portanto, a questão maior está no quanto as bases socioculturais brasileiras ainda mantém a hegemonia do pensamento excludente, que desenraiza os homens de sua existência cidadã (Martins, 1997). Ações contra o pensamento cristalizado e hegemônico que reiteram a exclusão de uma maioria que se torna minoria pela ausência de representatividade jurídica é essencial como garantia do existir social. No entanto, as punições repressivas com excesso da força podem surtir efeito rebote contrário ao que se deseja, tornando o "vilão" um "herói", como ocorreu com Edir Macedo em 1992. Afinal, se Leo Lins tem fã clube considerável numericamente, isso reflexiona a tensão social que se estabelece em sua defesa.

Melgaço, Santos e Toledo (2024, p. 13) afirmam a partir dos estudos de Raymond Williams que:

[...] o sistema central dominante implica diretamente na ação dos homens; porque estes agem sob a influência da hegemonia cultural dos significados e valores, em sua concretude, ou seja; eles são organizados, apreendidos e vividos pelos homens. Para entender como funciona uma cultura hegemônica deve-se compreender o processo social real em que ela acontece na prática. Esse processo é chamado de incorporação, as formas pelas quais os indivíduos apreendem a cultura e se apropriam dela como verdade.

Obviamente que não se defende as ações de Léo Lins, mesmo que em sua defesa esteja a liberdade de expressão artística e/ou a performance de sua persona humorística, haja vista o teor do conteúdo divulgado. Defende-se que o mesmo deva ser punido, pois a lei existe para tal, mas para além dessa questão "individualizante" estão questões prioritárias como, por exemplo, a transformação da forma do pensamento brasileiro acerca desses temas sensíveis, porque Léo Lins representa o pensamento comunitário, que infelizmente é naturalizado e aceito pela maioria da população brasileira, inclusive por pessoas atingidas pela sua linha de discurso.

Salienta-se que a educação e todas as suas implicações no seio comunitário, como a formação social familiar, do trabalho, da tradição, do intelecto - teórico, etc. são forças sociais imbuídas tanto na produção, quanto na reprodução da cultura e, portanto, precisam ser repensadas para a melhoria do quadro social dominante, pois a vida comunitária delas dependem (Williams, 2011). 

Melgaço, Santos e Toledo (2024, p. 19) reiteram o pensamento teórico de Raymond Williams no qual estão implicadas a ampliação da:

[...] conceituação para a compreensão de uma totalidade humana que não exclui as subjetividades mais profundas, compreendendo que os seres sociais são o produto de toda a cultura existente. E que a cultura não pode ser afastada do processo humano como princípio heterogêneo, pois isso corrobora para uma fragmentação da produção humana. Logo, as artes são uma produção capaz de transmitir e produzir cultura, bem como modificar cultura e transformá-la na medida em que acessa aos homens, levando-os ao despertar de sua consciência crítica. Isso retorna o homem a sua própria gênese.

Portanto, o caso Léo Lins serve para acender a luz sobre o papel da arte na propagação de formas de opressão ou de revolução conceitual, bem como do quanto a arte no tempo que produz e reproduz ação humana pode romper ou manter padrões sociais pré-existentes de forma direta ou indireta. A censura nesse caso, como mediação de conteúdo prejudicial a vida humana pode e deve ser pensada, não no sentido estrito da palavra, mas na forma do limite, afinal até onde a arte pode ir e quais são as leis que definem esses limites?

Acredita-se que há limites referentes a humanização que não devem ser ultrapassados e para reafirmá-los têm-se, historicamente, a Declaração dos Direitos da Mulher e Cidadã de 1791, a Lei nº 11.340 de 2006 (Lei Maria da Penha), a Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, a Declaração Universal dos Direitos da Criança de 1959, a Lei nº 7.716 de 1989 e a Lei nº 14.532 de 2023 (criminalização do racismo), o Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146 de 2015), o Projeto de Lei nº 7.292 de 2017 (dispõe sobre a criminalização da LGBTfobia) e etc. Como hipótese, têm-se que o limite da produção artística se encontre na justa forma da vida humana, em compromisso com a história humana, na qual a liberdade de uma pessoa começa na liberdade de outra e vice-versa. Isso, a meu ver, é primordial para a justiça dos processos coletivos.


REFERÊNCIAS:

CEVASCO, M. E. Para ler Raymond Williams. São Paulo: Paz e Terra, 2001.  

MARTINS, José de Souza. Exclusão social e a nova desigualdade. São Paulo: Paulus, 1997.

MELGAÇO, D. da C. A.; SANTOS, L. R. dos; TOLEDO, D. A. da C. Trabalho & cinema: correlações culturais na análise fílmica de “7 prisioneiros”. Revista HISTEDBR On-line, Campinas, SP, v. 24, p. 1-23, 2024. DOI: 10.20396/rho.v24i00.8674334. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/histedbr/article/view/8674334. Acesso em: 19 abr. 2024.

WILLIAMS, R. [1921-1988]. Cultura: Sociologia. Tradução: Lólio Lourenço de Oliveira. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.

WILLIAMS, R. [1921-1988]. Cultura e Materialismo. Tradução: André Glaser. São Paulo: UNESP, 2011.


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