Eu não voto em Bolsonaro por uma questão que, para mim, vai muito além de simpatia ou antipatia por uma pessoa. Meu voto é uma escolha de projeto de país.
A história brasileira é marcada por desigualdades profundas, dependência econômica, concentração de riqueza, exploração de recursos naturais e disputas permanentes pela nossa soberania. Ao mesmo tempo, somos uma nação com enormes potencialidades, recursos naturais, capacidade científica, território, população e condições para construir um projeto próprio de desenvolvimento.
É nesse contexto que estão meus 13 motivos.
1. Meu país não é quintal dos Estados Unidos
Defender a soberania brasileira não significa ser contra os Estados Unidos ou contra qualquer outro país. Significa entender que o Brasil precisa ter uma política externa independente e orientada pelos seus próprios interesses.
A história da América Latina é também a história da interferência das grandes potências sobre países periféricos. O imperialismo não desapareceu simplesmente porque o colonialismo formal terminou.
Eu quero um Brasil que dialogue com Estados Unidos, Europa, China, América Latina e o restante do mundo sem se colocar automaticamente na condição de subordinado.
2. Nossos bens e nossas riquezas são nossos
Petróleo, minerais, água, terras, biodiversidade e outros recursos estratégicos não são apenas mercadorias.
São patrimônio econômico, ambiental e geopolítico.
Não aceito a ideia de que o desenvolvimento brasileiro deva significar simplesmente retirar nossas riquezas do território, exportar matéria-prima e deixar que grande parte do valor agregado e dos lucros seja produzido ou capturado fora daqui.
Quero que nossos recursos sejam utilizados para gerar ciência, tecnologia, indústria, empregos, infraestrutura e qualidade de vida para a população brasileira.
3. A Amazônia precisa ser protegida
A Amazônia não é um obstáculo ao desenvolvimento. Ela é uma das maiores riquezas estratégicas do Brasil.
Preservar a floresta significa preservar biodiversidade, água, clima, conhecimento, povos tradicionais e possibilidades econômicas futuras.
Não quero uma Amazônia transformada em território de saque.
Quero uma Amazônia protegida, pesquisada e economicamente valorizada de maneira sustentável, inclusive por meio da ciência, da tecnologia e da bioeconomia.
Destruir a floresta para obter lucro rápido é, na minha visão, uma forma de empobrecimento nacional.
4. Políticas públicas para minorias não são "protecionismo para vagabundo"
Eu acredito que uma sociedade que carrega séculos de desigualdade não pode fingir que todos começaram do mesmo lugar.
O Brasil foi construído sobre séculos de escravidão e exclusão. Mulheres, negros, indígenas, pessoas com deficiência e diversos outros grupos foram historicamente submetidos a formas diferentes de marginalização.
Políticas de inclusão e reparação não são privilégios.
São instrumentos para diminuir desigualdades que não nasceram ontem.
Direitos iguais também exigem condições minimamente justas para que esses direitos possam ser exercidos.
5. A violência não é o caminho para acabar com a violência
Eu não acredito na romantização das armas.
Odeio armas e não acredito que uma sociedade se torne automaticamente mais segura simplesmente porque mais pessoas estão armadas.
Segurança pública exige Estado eficiente, investigação, inteligência, prevenção, combate ao crime organizado, controle das armas ilegais, educação, oportunidades e políticas sociais.
Não quero uma sociedade em que cada cidadão precise imaginar que sua segurança depende de possuir uma arma.
Quero um Estado capaz de proteger seus cidadãos.
6. O feminicídio existe e precisa ser combatido
Durante muito tempo, a violência contra a mulher foi tratada como problema privado.
Não é.
O feminicídio existe e precisa ser reconhecido e combatido pelo Estado e pela sociedade.
Uma mulher não pode ser assassinada por ser mulher e depois ouvirmos que isso é simplesmente uma "briga de casal".
Defender políticas de prevenção à violência contra a mulher não é atacar a família. É defender a vida, a dignidade e o direito de mulheres viverem sem medo.
7. Religião e política ocupam lugares diferentes
Eu respeito a fé de cada pessoa.
Justamente por isso, não quero que uma religião determine os direitos de todos.
Um país plural precisa construir políticas públicas pensando no conjunto da população, e não exclusivamente na moral de determinado grupo religioso.
A religião pode participar do debate público porque seus fiéis são cidadãos. Mas nenhuma religião deve ser transformada em autoridade política absoluta.
A política precisa servir ao coletivo.
8. O Estado é laico
Estado laico não é Estado contra a religião.
É Estado que não pertence a nenhuma religião.
Católicos, evangélicos, espíritas, judeus, muçulmanos, praticantes de religiões de matriz africana, ateus, agnósticos e pessoas que simplesmente não seguem religião alguma precisam ter exatamente a mesma cidadania.
A liberdade religiosa só é verdadeiramente possível quando nenhuma religião controla o Estado.
Por isso, defendo a separação entre Estado e religião como princípio democrático.
9. Direitos trabalhistas são direitos, não privilégios
Nenhum direito trabalhista importante caiu do céu.
Jornada de trabalho, descanso, férias, salário mínimo, previdência e proteção ao trabalhador foram conquistas históricas construídas por trabalhadores que lutaram contra relações de exploração.
Não aceito a ideia de que o trabalhador precisa necessariamente abrir mão de direitos para que o país se desenvolva.
Quero o contrário: uma economia mais produtiva, tecnológica e eficiente, capaz de produzir mais sem exigir que as pessoas simplesmente trabalhem até a exaustão.
Por isso, apoio o fim da escala 6×1.
Trabalho deve fazer parte da vida. Não deve consumir a vida inteira.
10. Não ignoro a história do imperialismo
Não acredito numa explicação simplista segundo a qual Estados Unidos e Europa seriam ricos _apenas_ porque exploraram outros países.
A industrialização, a ciência, as instituições e diversos outros fatores foram fundamentais para a formação dessas economias.
Mas também não aceito apagar da história o colonialismo, a escravidão, a extração de recursos, a conquista territorial e as relações econômicas profundamente desiguais que contribuíram para a acumulação de riqueza das potências.
O imperialismo foi uma realidade histórica.
E suas consequências não desapareceram magicamente com o fim das colônias formais.
Por isso, quando penso no Brasil, penso também na necessidade de superar relações de dependência e construir maior autonomia econômica, científica, tecnológica e política.
11. O Brasil é uma nação rica e promissora
Eu não aceito a ideia de que o Brasil esteja condenado a ser eternamente um exportador de produtos primários e consumidor de tecnologia produzida por outros países.
Temos recursos naturais, universidades, pesquisadores, trabalhadores, indústria, agricultura, energia, biodiversidade e um enorme mercado interno.
Precisamos transformar essas potencialidades em desenvolvimento.
Isso significa investir em educação, ciência, tecnologia, infraestrutura, indústria, inovação e produção nacional.
Não quero apenas vender minério.
Quero produzir tecnologia a partir dele.
Não quero apenas exportar produtos agrícolas.
Quero desenvolver ciência e indústria associadas à nossa agricultura.
Não quero apenas possuir biodiversidade.
Quero transformar conhecimento sobre ela em pesquisa, medicamentos, tecnologia e riqueza preservando a floresta.
Quero um Brasil que agregue valor ao que produz.
12. Educação e saúde não podem ser tratadas apenas como mercadorias
Educação e saúde são necessidades humanas fundamentais.
Uma criança não deveria receber educação de qualidade apenas porque sua família pode pagar.
Uma pessoa não deveria ter acesso à saúde apenas porque possui dinheiro.
Mercados podem participar da prestação de determinados serviços, mas eu não aceito que o direito à saúde e à educação seja subordinado exclusivamente à lógica do lucro.
Defendo o fortalecimento dos serviços públicos e universais.
O Estado deve garantir que ninguém fique sem atendimento porque não pode pagar.
Educação e saúde não são apenas despesas.
São investimentos na própria capacidade de desenvolvimento de uma sociedade.
13. A hipocrisia política me revolta
Por fim, existe uma razão profundamente pessoal.
Tenho dificuldade de aceitar discursos que falam em moralidade, família, patriotismo, Deus ou bons costumes enquanto, na prática, defendem políticas ou comportamentos que considero incompatíveis com a dignidade humana, com os direitos sociais, com a democracia ou com o respeito ao próximo.
Não me interessa apenas o discurso.
Quero coerência entre aquilo que uma pessoa diz defender e aquilo que efetivamente faz.
Não quero políticos que utilizem religião como instrumento de poder, patriotismo como instrumento de submissão, moralidade como instrumento de julgamento dos outros ou liberdade como justificativa para retirar direitos de quem pensa diferente.
Quero humanidade.
Quero democracia.
Quero justiça social.
Quero soberania.
Quero desenvolvimento.
Quero um país que seja capaz de olhar para sua própria história sem vergonha, aprender com seus erros e construir seu futuro sem se colocar de joelhos diante de nenhuma potência.
Por isso, não voto em Bolsonaro
Meus 13 motivos não se resumem a gostar ou não gostar de Bolsonaro.
Eles representam uma visão de Brasil.
Um Brasil soberano, mas aberto ao mundo.
Patriótico sem ser nacionalista xenófobo.
Desenvolvido sem destruir a natureza.
Capitalista, se assim for sua escolha econômica, mas com direitos sociais e dignidade humana.
Religioso para quem tem fé, mas laico enquanto Estado.
Seguro sem transformar armas em símbolo de cidadania.
Rico em recursos, mas também rico em conhecimento.
Com crescimento econômico, mas sem transformar trabalhadores em instrumentos descartáveis.
Com liberdade, mas também com responsabilidade.
Com democracia, direitos humanos, educação, saúde, ciência, cultura e justiça social.
Eu não quero um Brasil subordinado.
Não quero um Brasil que venda suas riquezas e compre de volta produtos de alto valor agregado.
Não quero um Brasil que trate pobreza como fracasso individual.
Não quero um Brasil que confunda fé com governo.
Não quero um Brasil que considere direitos trabalhistas obstáculos ao desenvolvimento.
Não quero um Brasil que trate a destruição da Amazônia como progresso.
E, principalmente, não quero um Brasil em que o poder político seja usado para dividir, humilhar e desumanizar pessoas.
Meu voto é, portanto, menos um voto contra uma pessoa e mais um voto a favor de um projeto de país.
Um projeto baseado em soberania, desenvolvimento, democracia, direitos sociais, justiça, ciência, preservação ambiental e dignidade humana.



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