segunda-feira, 31 de outubro de 2022

O 18 Brumário de Louis Bonaparte

Antonio Carlos Mazzeo | O 18 Brumário de Luís Bonaparte | A guerra civil na ...

YouTube · TV Boitempo

20 de dez. de 2012

Nada tão atual. Nada tão rico. Nada tão importante, quanto esta leitura marxiana.

Ressurge o bonapartismo na figura de outrora. O salvador da pátria conciliador das massas, que ainda representa uma classe social e um projeto de capital.

Na medida em que os homens traem, vendem a ideia da humanidade e chacinam ou trancafiam os que lutam por ela, a ideia como tal deixa de ser pronunciável; o escárnio e a sátira constituem a aparência real da sua verdade.
Em alguma passagem de suas obras, Hegel comenta que todos os grandes fatos e todos os grandes personagens da história mundial são encenados, por assim dizer, duas vezes. Ele se esqueceu de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa.
Os homens fazem a sua própria história; contudo, não a fazem de livre e espontânea vontade, pois não são eles quem escolhem as circunstâncias sob as quais ela é feita, mas estas lhes foram transmitidas assim como se encontram. A tradição de todas as gerações passadas é como um pesadelo que comprime o cérebro dos vivos.
E justamente quando parecem estar empenhados em transformar a si mesmos e as coisas, em criar algo nunca antes visto, exatamente nessas épocas de crise revolucionária, eles conjuram temerosamente a ajuda dos espíritos do passado, tomam emprestados os seus nomes, as suas palavras de ordem, o seu figurino, a fim de representar, com essa venerável roupagem tradicional e essa linguagem tomada de empréstimo, as novas cenas da história mundial.
Não é do passado, mas unicamente do futuro, que a revolução social do século XIX pode colher a sua poesia. Ela não pode começar a dedicar-se a si mesma antes de ter despido toda a superstição que a prende ao passado.

 

Referência:

Marx, Karl, [1818-1883]. O 18 de brumário de Luís Bonaparte / Karl Marx ; [tradução e notas Nélio Schneider ; prólogo Herbert Marcuse]. - São Paulo: Boitempo, 2011.


quarta-feira, 5 de outubro de 2022

Cantando e dançando na chuva







"I'm singin' and dancin' in the rain!"

(Gene Kelly)

Não me convide para cantar na chuva

Na chuva eu já estou

Não me convide para dançar na chuva

Eu sempre estou na chuva

Não me convide para celebrar

se estou maltrapilho

Não me convide, não.

Não me convide para cantar na chuva

se o que me resta

é o leito do hospital

uma gripe que não cessa

uma pneumonia adquirida

nesse cantar

Não me convide para dançar na chuva

se todos os dias estou na chuva

nas ruas à beira dos sinais

nas praças à roda dos bancos

nos mercados à roda dos restos

nas fábricas à roda de contas injustas

Não me convide para cantar na chuva

se a sua dança vier acompanhada da morte

das balas perdidas

e do seu cacetete

os teus fuzíveis dançam sobre os túmulos

dos meus sonhos

Não me convide para cantar e dançar na chuva

se isso serve para amenizar sua consciência

se isso é a esmola que cala a tua 

responsabilidade social

se em algum momento eu sou inferior

se mereço a tua caridade

se sou apenas a tua tarefa diária de bem

Não me convide, na chuva eu já estou

eu sempre estou na chuva

sem teto e sem esperança

Por Dâmaris Costa




sábado, 27 de agosto de 2022

Os vértices recônditos da decadência

 


Vi um homem descendo uma ladeirinha. Vestido de paletó e gravata. Vi um homem com os bolsos cheios de um algo qualquer subindo a ladeirinha com um semblante embotado. Vi milhares de homens a descer ladeirinhas, todos esfarrapados, retornando apavonados. Eram todos iguais, a mesma vestimenta, a aparência de uma mesma cor, o mesmo sapato, o mesmo brilho nos olhos, como de esperança. Retornavam todos da mesma maneira, testas cheias de suor, braços fortes segurando instrumentos de trabalho, e eles se dissipavam em todas as direções. Vi o primeiro homem que descera a ladeirinha com um sorrisinho matreiro em contentamento. Vi que do alto eles jogavam corpos e corpos ladeirinha abaixo. Pareciam extraviados, sujos e desalinhados. Foram fazendo uma cama de mortos na ladeirinha. Vi as máquinas se movimentarem sobre os corpos a cobrirem aquela ladeirinha com terra. Sobre os corpos, dos homens que esperançavam, vi passarem o pavimento. Observei o primeiro homem, que descera a ladeirinha, segurando uma placa na mão. Nela estava escrito em letras garrafais: PROGRESSO!

Das ladeirinhas que nós descemos, subimos aptos a explorar ou a sermos explorados. Compramos as mentiras que nos vendem sob a laje de muitos mortos, nos esquecendo que é ladeirinha abaixo que descemos, ladeirinha acima que esperançamos, mas que é, indubitavelmente, ladeirinha abaixo que retornaremos mortos, soterrados em nome do progresso.

Por Damaris Melgaço


quinta-feira, 26 de maio de 2022

(Des)sensibilizações capitalistas, alienação da produção cultural


Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgrKLicmXEGvkN054cEsWw-6qRz02k-mH6RG8JCiN1AE_P5_MRLggOWt2gDlm8eOCltojwaWNoZTzqobarGxzYW_eH_BHohElTUVCsejvq5hGSXhzZwR3jLTWxNEx1cIM10uyQQXx2C95K8/s1600/cultura02.png

“Num ser racional, cultura é a capacidade de escolher seus fins em geral e, portanto, de ser livre. Por isso, só a cultura pode ser o fim último que a natureza tem condições de apresentar ao gênero humano.” (Kant, Crítica do Juízo, 83)[1].

 “Um povo faz progressos, tem seu desenvolvimento e tem seu crepúsculo” (Hegel)

Compreendendo que dentro de cada sociedade, a depender de seu contexto histórico que é “aqui agora”, porém ao mesmo tempo passado presentificado na memória e possibilidade futura, objetivada pela transmissão cultural de saberes acumulados, própria dos homens, disserta-se sobre as influências dos processos históricos que perpassam a cultura, sendo esta diversa na medida em que flutuam entre costumes, tradições e crenças.

Numa antropologia dos sentidos é importante considerar que se os homens apreendem o mundo pelos órgãos dos sentidos e que estes são o portal para a percepção do mundo, então é possível compreender a lógica que coloca a percepção sensorial para além da organicidade dos homens, já que ela é uma atitude cultural, pois também assegura a transmissão de valores culturais. Como a percepção sensorial pode constituir-se uma ação cultural? Quando se entende que as relações humanas iniciam-se numa relação que envolve a comunicação sensorial, desde a fala, escrita, música, arte visual, valores, ideias diversas, etc., pois estas envolvem sensações como o olfato, o tato, o paladar, etc. (LOPES, 2004).

No entanto, é preciso diferenciar esses movimentos perceptivos, já que eles são limitados pela cultura, porque os seres sociais percebem o mundo de diferentes formas e isso depende da cultura predominante à sua estrutura social. “Os sentidos são “janelas abertas sobre o mundo”, o que significa que eles são, por natureza, transparentes e, portanto, pré-culturais.” (LOPES, 2004, p. 158). Contudo serão as regras sociais criadas, que determinarão quais comportamentos sensoriais serão permitidos e são essas mesmas regras que determinarão os significados das experiências sensoriais vividas dentro de uma dada realidade social.

Há um ponto interessante que Lopes (2004) traduz em análise dos significados correlacionados as diferentes sensorialidades dentro das culturas diversas, pois essa análise possibilita uma abundância de símbolos sensoriais, como, por exemplo; a visão pode estar localizada simbolicamente nas funções psíquicas superiores – processo racional - ou ao mesmo tempo nas crenças mitológicas - bruxaria, o cheiro pode remeter aos significados de pureza ou pecaminosidade, bem como “... poder político ou exclusão social” (p. 158).

Em se tratando de estarmos intimamente ligados a sociedade do capital, considera-se que a sociedade de classes possui em sua gênese cultural as marcas históricas da revolução industrial e de todos os processos que envolvem a construção da cultura hegemônica que, por agora; determina as relações sociais, através de suas normas e valores. Ao mesmo tempo, não se pode ignorar que dentro dessa cultura que se apresenta como ordeira dos sentidos e significados existe outras culturas paralelas que concorrem com a primeira, seja pela contradição ou pela criação de suas próprias normas e regras comunitárias.

A análise do texto de Thompson (1998) em seu capítulo "A venda de esposas" apresenta algumas percepções culturais muito interessantes. Talvez o texto proponha o afastar-se dos estereótipos para aproximar-se de um olhar antropológico, cujo objetivo é perceber a cultura a partir de seu lócus temporal. Afinal, é muito comum que àqueles, que entram em contato com um determinado tempo e lugar cultural, terminem por significar o observado a partir de seu lócus e historicidade.

Thompson (1998) apresenta a perspectiva de um ritual de venda feminina do Séc. XVIII - [1760-1880], que se fez presença naquele tempo histórico como algo aceitável entre os trabalhadores em contexto pré-industrial e ao mesmo tempo rejeitado pelas regras sociais representativas do estado ou sistema de governo muito atrelado a aspectos de ordem religiosa. Aparentemente, em uma leitura corriqueira, poder-se-ia supor que se trataria de uma reafirmação da existência do patriarcado ou de uma sociedade machista. 

A princípio maculados pela cultura da sociedade burguesa poderíamos afirmar que se tratava de uma forma mais primitiva que antecipava a exploração da imagem feminina. No entanto, para além das primeiras impressões, Thompson (1998) apresenta um quadro subversivo, cuja representação cultural era a própria movimentação de um coletivo social de cultura pré-capitalista para a conquista de direitos e não de perda. O autor faz uma análise deste tempo e de como o ritual emerge de uma necessidade cultural em contraposição as imposições do puritanismo burguês.

O interessante deste texto é que Thompson (1998) apresenta a existência de uma cultura geral que, a princípio, dá conta de responder as necessidades básicas daquela sociedade, porém ao mesmo tempo para além de uma cultura hegemônica ele apresenta a existência de uma cultura revolucionária que parte dos próprios trabalhadores a partir de suas outras necessidades, sendo assim caracterizada como um movimento de contra cultura que parte da união dos coletivos humanos, que criam as suas próprias regras e burlam a regra social geral.

Ginzburg (1989), em seu capítulo “Sinais, raízes de um paradigma indiciário”, parte do princípio de que os saberes da experiência não estão em busca de explicação e que o saber venatório está no interior das práticas culturais, que assinalam a significação do mundo em contexto intrasubjetivo. A semiótica da qual Ginzburg (1989) discursa relaciona-se a indícios, sinais que vem da medicina grega, que conseguia apreender diretamente da experiência as suas práticas. Podemos entender que a semiótica como se conhece hoje não foge à ideia desse saber experiente, porque foi através das necessidades comunicativas dos homens que os signos foram criados.

É na experiência que, como seres sociais, (co)criamos os conceitos, sendo a comunicação um fenômeno cultural. Isso não destoa de Lopes (2004), pois este autor reafirma a existência de uma cultura dos sentidos. Logo, os processos significativos fazem parte desta apreensão, via percepção, que são absorvidos no interior da cultura e que permanecem na memória coletiva dos seres sociais, constituindo as práticas culturais. Os indícios emergem dessas memórias significativas, através dos signos (sinais verbais e não verbais) que se desenham na relação comunicativa entre pares.

Quadro 1 – Relato de Experiência Escolar

Março de 1987, eu tinha 10 anos e vivia minha primeira experiência da puberdade. As mudanças no organismo eram visíveis e eu ansiava pelo meu primeiro sutiã. Minha mãe uma vendedora de roupas havia comprado este artefato e me dado de presente. Naquela época eu não tinha noção das diferenças existentes dentro da cultura escolar pela divisão de classes. E mesmo sendo uma aluna de escola pública podia perceber visivelmente a diferença existente entre pares, já que alguns aparentemente possuíam poder aquisitivo maior que dos outros. Lembro-me dessa vivência como traumática, já que guardei na memória a dor do desprezo causado por uma colega. Aquele dia eu fui à escola toda orgulhosa do meu primeiro sutiã. Ele era cor de rosa, de tecido quadriculado e macio. A ansiedade pelo compartilhamento dessa experiência era tanta que não via a hora de chegar o recreio. Lembro-me do momento em que nós, três colegas, estávamos encostadas num canto da parede e eu efusivamente levantei a blusa para mostrar a minha alegria. No entanto, a resposta que veio me marcou profundamente. Uma de minhas colegas, filha única, levantou a blusa e mostrou o seu Duloren. Ela disse: - Esse seu sutiã é muito feio. O meu é de melhor qualidade. Nessa época a propaganda da mídia era o sucesso do meu primeiro sutiã Duloren. A marcas da diferença sobrepujaram o valor da experiência pela sensibilidade.

Fonte: Da autora

Este relato, agora revisitado à mostra de autores como Thompson (1998) e Ginzburg (1989) pode ser analisado pela perspectiva da cultura e ao mesmo tempo confrontado pela tensão da cultura hegemônica, que se instala no repertório dos seres sociais e que possui a aparência da espontaneidade juvenil, mas carregam em si as ideologias ou conceitos apreendidos dentro de uma dada realidade. Dessa forma ao analisar as atitudes presentes nesta narrativa, podemos perceber que ela se desenha dentro de perspectivas culturais distintas, mas ao mesmo tempo perpassadas pelo tipo de construção social, que neste caso é a sociedade capitalista.

As três meninas compartilham da felicidade da transformação corporal e percebem o mundo pelos sentidos e significados dado pelo meio social. Ambas as meninas, a pobre e a patricinha, demonstram o quanto a passagem da vida infantil para a juvenil ganham características culturais associadas ao crescimento e amadurecimento que deve ser motivo de orgulho. No entanto, dentro dessas interpretações significativas não se exclui o poder do fetiche que transforma dentro da sociedade do capital a vida orgânica e suas etapas em caráter monetizado.

Thompson (1998) ao descrever as questões do tempo, disciplina de trabalho e capitalismo industrial declara que o tempo sofreu grandes transformações na medida em que passou a direcionar o ritmo das fábricas. Foi a monetarização do tempo, que conflui nas determinações e guias do desenvolvimento econômico e segundo este autor “... não existe desenvolvimento econômico que não seja ao mesmo tempo desenvolvimento ou mudança de uma cultura.

Percebe-se no relato acima o quanto as questões pertencentes à vida cronológica humana, relativas à passagem do tempo possuem na sociedade ocidental um caráter monetizado, já que a experiência do desenvolvimento dos seios implica no objeto do desejo, nesse caso, o sutiã, que agora é uma mercadoria. E essa diferença entre quem possui o poder monetário para a compra da mercadoria ganha proporções gigantescas na realidade cultural das crianças.

As percepções sensoriais das fases humanas estão maculadas pela cultura da diferença entre as classes. Veiga-Neto (2003) explica as origens da existência comparativa entre culturas e como essa comparação é conceitual, pois é proveniente de uma cultura da civilidade que busca a autorregulação do comportamento, cuja espontaneidade é substituída pela contenção do afeto. A educação escolarizada abarca a rejeição de toda e qualquer diferença e tem isso como herança da cultura modelar alemã que impõe um padrão escolar único, ou seja, branco, machista, judaico-cristão e eurocêntrico.

No entanto, no relato acima se percebe que mesmo dentro de uma mesma realidade, existe diferença nas percepções subjetivas dos seres sociais, no entanto estas diferenças não sobrepujam a massificação das ideias pelas regras e normas gerais da sociedade capitalista. As culturas existem e concorrem dentro das experiências. A grande questão não é se existe diversidade cultural, mas como elas coexistem dentro de uma mesma realidade, não se descolando da totalidade que compõe a estrutura de uma comunidade social. Desta maneira, é preciso buscar além das aparências imediatas, sem ignorar os aspectos que Lopes (2004) aponta: “A palavra é elemento desencadeador de ações ou energias vitais. De fato, ao ser dirigida para atingir determinados fins, interfere na existência, pois que, uma vez absorvida, pode provocar reações, controláveis ou não” (p. 187).

REFERÊNCIAS:

GINZBURG, C. Mitos, Emblemas, Sinais: Morfologia e História. São Paulo: Cia das Letras, 1989.

LOPES, José de Sousa Miguel. Fundamentos para uma antropologia dos sentidos. In: Cultura acústica e letramento em Moçambique: em busca de fundamentos antropológicos para uma educação intercultural. São Paulo: EDUC, 2004.

THOMPSON, Edward. P. Costumes em comum. Estudos sobre a cultura popular tradicional. SP: Cia das Letras, 1998, pp. 142-179.

VEIGA-NETO, Alfredo. Cultura, culturas e educação. Rev. Bras. Educ., Rio de Janeiro , n. 23, p. 5-15, Aug. 2003.

quinta-feira, 5 de maio de 2022

"Yanomami" : "seres humanos" que se opõem às categorias yaro (animais de caça) e yai (seres invisíveis ou sem nome), mas também a napë (inimigo, estrangeiro, "branco").



Por Dâmaris A C Melgaço


Estudos Culturais numa perspectiva materialista não nega a existência das bases materiais determinantes do processo construtivo da sociedade, mas entende que dentro de cada sociedade existe não somente uma cultura majoritária que responde as necessidades aparentes do todo organizado, mas outras culturas que ao mesmo tempo estão em dialética com a principal. Estas culturas são as resistentes e de perspectivas diferentes. A cultura para o materialismo cultural não é um laissez-faire, mas contradição e tensão constituinte do processo humano em sua totalidade, portanto cultura é a coexistência da diversidade.

O materialismo cultural entende o processo da construção social existente na história e se contrapõe as práticas culturais hegemônicas, revelando os apagamentos da diferença cultural dentro das sociedades, constituídas pela elevação do homem disciplinado ao pódio da moralidade ideal. Dessa forma o homem ainda pôde se manter no centro do mundo e no domínio social.

Se antes a espiritualidade e a mística eram o centro, com a evolução das ciências, o homem passou pelo ideário de centralidade. No entanto, quanto mais avançaram as ciências, este ser social foi colocado à margem de sua centralidade. Para garantir o seu status quo, amparado nas pseudociências oriundas do espaço real da ciência, o homem na ideologia europeia ousou apropriar-se da centralidade modelar, dando aos homens uma superioridade a partir de sua branquitude. Homem branco, machista, judaico-cristão, eurocêntrico e monocultural.

Criou-se a ideia de uma cultura erudita capaz de subjugar as outras culturas. Tentativa máxima da massificação cultural. Dessa forma tem-se uma cultura que se constitui elemento para a dominação e exploração de outros povos.

É importante conversar sobre isso, já que estamos vivenciando reverberações dessa ideologia de uma identidade única ou de um homem ideal. Os Yanomamis e o seu apagamento na Amazônia, subjugados a cultura exploratória dos garimpos, fomentado pela política nacional que se ampara nos ideais do imperialismo alemão estão gritantes aos olhos de todos.

A máxima da monocultura capitalista que se ampara no conceito de que a universalidade não se dá nos detalhes, na imediaticidade da experiência e sim a nível de princípios gerais, generalizações, precisa urgentemente ser questionada. Os movimentos políticos de defesa do multiculturalismo são essenciais para sairmos das aparências imediatas e revelar o todo que se esconde dentro da necessidade de uma monocultura, que é ao mesmo tempo essencial para a manutenção de um sistema político e econômico que rege as relações do capital.

O que ocorre na imediaticidade observada na experiência Yanomami de ser dizimado em sua aldeia, é a ponta do iceberg revelador de processos antigos realizados em outro tempo, mas que se materializam no aqui agora, nesta sociedade dita moderna, evoluída e detentora de alta cultura.

A pergunta é, o que dá bases para que atos como esses se perpetuem nesta sociedade?

Hipótese? A massificação das ideias por instâncias maiores impõe dentro das culturas a necessidade de apagar a heterogeneidade na busca pela homogeneidade, sob a legitimação da monocultura.

Quais seriam essas massificações?

Unificação de uma cultura.

Estabelecimento do poderio de uma cultura única.

Reforçamento da força e do poder monocultural.

Realização de propaganda da máxima cultural (intercomunicação).

Censura e controle das mídias, imprensa, produtos artísticos – músicas, artes visuais, teatro, etc.

Autopromoção da imagem cultural (religiosidade e moralidade).

Diferenciação entre culturas (baixa cultura e alta cultura)

Negação de outras formas de ser, organizar e interagir.

Expulsão de outras culturas (preconceito e ódio).

Destruição de toda forma ideológica cultural que se contraponha a Cultura hegemônica.

Resultados da massificação? Adestramento dos seres sociais às práticas arbitrárias que impõem aos outros seres sociais a sua esterilidade. Retirada dos seres sociais do lugar de abertura sensível as subjetividades para o lugar do amortecimento afetivo. Normalização da exclusão dos que não se adequam aos valores e regras da cultura geral. Fomentação de preconceitos, estigmas e estereótipos.


E você me perguntaria por que as pessoas em sua grande maioria estão apagadas e caladas diante da arbitrariedade ocorrida no Amazonas. Faça suas próprias leituras...






quarta-feira, 30 de março de 2022

A venda de esposas de Thompson


A análise do texto de Thompson (1998) em seu capítulo "A venda de esposas" apresenta algumas percepções culturais muito interessantes. Talvez o texto proponha o afastar-se dos estereótipos para aproximar-se de um olhar antropológico, cujo objetivo é perceber a cultura a partir de seu lócus cultural e temporal. Afinal, é muito comum que aquele que entra em contato com um determinado tempo e lugar cultural acabe por significar o observado a partir de seu lócus e historicidade. É necessário afastar-se de preconceitos para mergulhar na gênese cultural daquele tempo e espaço. É muito comum que nós tentemos explicar sentimentos e emoções a partir de nós mesmos. Sobre a própria ideia construída neste tempo histórico.

Thompson (1998) apresenta a perspectiva de um ritual de venda feminina do Séc. XVIII - [1760-1880], que se fez presença naquele tempo histórico como algo aceitável entre os trabalhadores em contexto pré-industrial e ao mesmo tempo rejeitado pelas regras sociais representativas do estado ou sistema de governo muito atrelado a aspectos de ordem religiosa.

Aparentemente, em uma leitura corriqueira, poder-se-ia supor que se trataria de uma reafirmação da existência do patriarcado ou de uma sociedade machista. A princípio maculados pela cultura da sociedade burguesa poderíamos afirmar que se tratava de uma forma mais primitiva que antecipava a exploração da imagem feminina.

No entanto, para além das primeiras impressões, Thompson (1998) apresenta um quadro subversivo, cuja representação cultural era a própria movimentação de um coletivo social de cultura pré-capitalista para a conquista de direitos e não de perda. O autor faz uma análise deste tempo e de como o ritual emerge de uma necessidade cultural em contraposição as imposições do puritanismo burguês.

O retrato aparente de uma mulher sendo levada ao mercado público, amarrada por corda atada a sua cintura para ser vendida a outro homem em um leilão como mercadoria, parece remeter a diversas temáticas existentes neste tempo atual, Séc. XXI, entre eles as lutas e trajetórias feministas a favor do direito das mulheres como uma reparação histórica contra o patriarcado.

E realmente a princípio esta ação parece associar a venda de mulheres à venda de gado e outros animais em mercado público com todas as obrigações pertencentes as negociações daquele tempo - anúncio, venda, intercepção, pagamento de taxas, firma de contratos e entrega de mercadoria. E é fato que ao nos debruçarmos sobre essa narrativa acabemos por sentir uma certa repugnância.

Thompson (1998) não ignora estes fatos, mas busca na investigação minuciosa do estudo objetal outras evidências reveladores de aparatos culturais essenciais daquela temporalidade histórica. Por isso sua investigação busca relatos históricos não só de casos reais, bem como se debruça na literatura e outras fontes para perceber o caráter real daquele evento fenomênico. Não parece ser seu intento a defesa de alguma ideologia, mas de revelar costumes comuns daqueles indivíduos a seu tempo.

Há a percepção de uma certa ironia na forma como esse processo ocorria, no entanto há intencionalidade na ação daqueles indivíduos que começam a desvelar-se quando nos é apresentada a razão das vendas, já que estas surgem da necessidade de soluções para o divórcio. 

Era uma tradição inventada para resolver a existência de novos relacionamentos no pós-guerra e o colapso dos relacionamentos. Era também uma forma de garantir a sobrevivência destes indivíduos em uma cultura puritana que não aceitava o divórcio e impedia o livre exercício laboral para a sobrevivência do casal separado e reagrupado.

Além disso, também correspondia a uma forma de resolver as relações afetivas caracterizadas como adultério, pois muitas daquelas mulheres já se encontravam em novos relacionamentos e estavam totalmente em consentimento ao ato da venda. Muito raro que ocorresse sem a concordância feminina.

É importante lembrar que Thompson (1998) apresenta um contexto cultural de repressão as demonstrações livres de afeto. As estruturas sociais impulsionavam a necessidade deste ritual, afinal havia a existência e vigência de determinados comportamentos sexuais e normas conjugais. O ideal de pertença não era um processo livre, já que ambos, homem e mulher, careciam do ritual para garantir o direito de sobreviver socialmente naquela sociedade.

Naquela forma de constituir-se grupo familiar não havia algo que separasse as relações econômicas das pessoais. O namoro estava associado ao amor, mas a unidade familiar acabava por ser associada ao companheirismo, cuja função além de doméstica era ao mesmo tempo econômica. 

Havia um certo cerceamento do ato livre de amor, sendo estes associados as formas mais expúrias próprias da plebe ou dos inferiores de caráter imoral. É clara a influência da religião nesta concepção moralista, cujo resultado era a vigilância moral. Daí a necessidade de criar um ritual que propusesse a solução para os dramas amorosos daquela população trabalhadora.

O interessante deste texto é que Thompson (1998) apresenta a existência de uma cultura geral que, a princípio, dá conta de responder as necessidades básicas daquela sociedade, porém ao mesmo tempo para além de uma cultura hegemônica ele apresenta a existência de uma cultura revolucionária que parte dos próprios trabalhadores a partir de suas outras necessidades, sendo assim caracterizada como um movimento de contra cultura que parte da união dos coletivos humanos, que criam as suas próprias regras e burlam a regra social geral.


sábado, 12 de março de 2022

Barbárie institucionalizada, razão de toda guerra no filme "O Poço"

Por Dâmaris A C Melgaço

O filme, "O poço" nos apresenta uma perspectiva polarizada, de possibilidades restritas às determinações do funcionamento territorial. Os homens adentram a ele como elementares, mas nunca são permanentes. Eles viajam pelas estruturas do sistema funcional do poço como escravos. A depender de sua habilidade estratégica dentro da prisão, sobem ou descem às camadas de territórios existenciais.

No entanto, o poço não valida suas próprias leis e a priori garante uma certa preferência de indivíduos em detrimento a outros, que embora possuam habilidades estratégicas são excluídos de alguns territórios. Há no poço os inconformados, os revoltados e os altruístas. Estes por sua vez caminham entre territórios, a fim de destruir as algemas do sistema funcional do poço. 

Todos os envolvidos buscam sobreviver, alguns individualmente, outros coletivamente, porém ao ignorar os condicionamentos do poço eles sofrem as consequências da ajuda não solicitada. 

Percebe-se nesta base funcional que a barbárie é acionada e quanto menor a escassez maior a barbárie, porém a barbárie vista apenas desta forma parece maquiar a barbárie existente dentro da forma existencial do poço, já que ela constitui-se a premissa básica daquele sistema funcional. O interessante é que há uma tentativa de justificar a violência existente dentro daquele território existencial, como se o rigor da barbárie física pudesse superar a barbárie funcional.

Em nome do bem comum, vale o terror, vale a espada, vale a morte do outro. Esquecem que todos estão no poço, aprisionados ao sistema funcional daquele território existencial. Desde as camadas mais altas, cuja provisão garante a sobrevivência, às mais baixas, cuja escassez garante a barbárie física. Parecem esquecer que são, em suma; indivíduos existentes naquela prisão, cuja cegueira das suas mentes garante o funcionamento do poço.  

No poço não há janelas e não há quem pense criá-las. Todos só pensam nas camadas, todos pelejam nas estruturas, todos só vêem o que desejam ver através de suas lentes condicionadas. Não há um louco para romper as lentes. Não há um louco para criar janelas. Todos condicionados a sua gênese animal, evocando a barbárie física contra um fosso desigual que eles mesmos criaram.

As lutas por territórios são e continuam sendo as rendas do sistema que tem sua gênese na necessidade instintual humana de ser o líder do bando e deter o poder. As guerras são a expressão dessa gênese. A luta pela imposição de um novo sistema funcional, a meu ver; é tão alienante quanto este, cuja mão de ferro regerá as vidas. De escravos a escravos melhor remunerados.

Enquanto a humanidade insistir na mercadorização da existência e da natureza, pela ostentação da moeda e do lucro, a vida será somente uma possibilidade: barbárie. E sinto muito informar que boas intenções não salvam o sistema e nem os que dele fazem parte. Não salvam os detentores do poder, porque à eles nada falta, nem tão pouco os que nada têm, porque estes precisam sobreviver e encontrar formas mecânicas de fazê-lo.





Os astros me ensinam meu lugar

Por Dâmaris A C Melgaço Eu gosto de contemplar a noite e de olhar para o céu. Ao olhar para cima, contemplo também a minha insignificância h...