sábado, 10 de agosto de 2024

CARTA PEDAGÓGICA À QUESTÃO AGRÁRIA BRASILEIRA E AOS SEUS DESDOBRAMENTOS NA EXISTÊNCIA INDÍGENA YANOMAMI

Fonte: Disponível em: https://www.poder360.com.br/poder-governo/governo/governo-lula-ainda-nao-atualizou-dados-sobre-yanomamis-em-2024/. Acesso em 10 ago. 2024.


Dâmaris Alcídia da Costa Melgaço[i]

Faculdade de Educação da Unicamp 

Resumo: O objetivo geral desta carta pedagógica é discutir teoricamente os desdobramentos da questão agrária na existência da população indígena Yanomami. Para tanto, fez-se pesquisa bibliográfica em plataforma digitais e livros, a fim de reunir argumentos teórico-científicos na tentativa de responder duas questões básicas: 1). Qual a relação entre a questão agrária brasileira e as insistentes invasões territoriais em espaços geográficos indígenas? 2). Por que os seres humanos se autodestroem nas relações sociais, mantendo em sua prática ações violentas sobre culturas diversas? Esta carta pedagógica auxilia na ampliação das reflexões acerca de processos libertadores da humanidade, cuja força vem do coletivo, numa práxis freiriana. Abre espaços de diálogo com a materialidade histórica dos homens e suas consciências, cujo objetivo é a libertação de suas mentes e a reapropriação de seu arcabouço histórico-cultural e de sua produção material.

Palavras-chaves: Reforma Agrária; Etnia; História e Sociedade, Capitalismo Dependente; Práxis Freiriana.

INTRODUÇÃO E DESENVOLVIMENTO 

Nos recônditos do espírito escrevi versos que me pesaram, outros que me confrontaram e outros que me libertaram. Todos eles eram caminhos possíveis. (Dâmaris Melgaço)

Dou início a esta carta pedagógica enfatizando a frase acima citada, a mim – muito peculiar. Afinal, discursar sobre as diferenças é sempre uma possibilidade reflexiva, sendo também uma oportunidade de levar outros seres a trilharem o caminho da reflexão, bem como uma oportunidade de nos concatenar a Paulo Freire em “A Pedagogia do Oprimido” quando afirmava que:

Será na sua convivência com os oprimidos, sabendo-se também um deles – somente a um nível diferente de percepção da realidade -, que poderá compreender as formas de ser e comportar-se dos oprimidos, que refletem, em momentos diversos, a estrutura da dominação. (Freire, 2021, p.67). 

É sabido, caro leitor, que desde a transição governamental brasileira ocorrida em janeiro de 2023 - na gestão Lula/Alckmin -, emergiram na mídia casos de exploração do garimpo em terras indígenas Yanomamis, sendo estas questões, já; anteriormente dadas e denunciadas, porém não consideradas em maior ângulo na política de base ultraliberal bolsonarista. Juntos ao caminhante da obviedade[1], podemos refletir que a questão agrária aqui exposta -, está para além das políticas de interesses partidários. Ela se alicerça nas bases estruturais da sociedade brasileira, que determinam nossas condições culturais, sociais, políticas e econômicas, não isentando nenhum governo.

Notícias anteriores aos movimentos do novo governo davam conta de que em abril de 2022, uma mulher e uma criança de três anos haviam sido levados por garimpeiros, ficando a criança na posse dos agressores. Outra notícia expôs um vídeo, cuja denúncia apontava o senador Messias de Jesus como um militante do garimpo ilegal e da mineração em terras indígenas, fechando os olhos para os embates mortais existentes entre garimpeiros e indígenas[2]. Fato é, que embora tenham sido feitas denúncias aos órgãos competentes - Polícia Federal e Ministério Público Federal – nada pôde ser feito, pois o local, cuja ocorrência efetuou-se, estava vazio e destruído por chamas. Quando em contato com os indígenas sobreviventes, nada se pôde obter, pois os mesmos foram silenciados por uma boa quantia[3]. O silenciamento dos inocentes, amigo leitor, é a arma fatídica de sua morte.

Relatórios realizados pelo CIMI - Conselho Indigenista Missionário[4]- apontam que no período de 1995 a 2005 ocorreram 287 assassinatos de indígenas no Brasil, sendo 165 no governo FHC – Fernando Henrique Cardoso (1995/2002) – média de 20,65 por ano e 122 no governo de Lula (2003-2005) – média de 40,67 por ano. O relatório, divulgado pelo CIMI em 2022, expõe claramente aumento das violências contra povos indígenas no governo Bolsonaro (2019-2022), contabilizando - em 2021 – 355 casos de violências contra eles, sendo destas; 176 casos de assassinato. Este relatório clarifica a posição mais radical deste governo em 2021, cuja política foi a manutenção da estagnação de demarcações territoriais indígenas e de omissão protetiva às terras já demarcadas. “A consequência dessa postura foi o aumento, pelo sexto ano consecutivo, (grifo meu) dos casos de “invasões possessórias, exploração ilegal de recursos e danos ao patrimônio”” (CIMI, 2022, p. 8). O que denota que esta política vêm de anos anteriores, porém atualmente mais agravada.

Embora esse alto índice de violência seja resultante de uma somatória de vários fatores, é sem sombra de dúvidas a questão fundiária a causa principal. A Política Indigenista Brasileira sempre atrelou a demarcação de terras indígenas aos interesses de terceiros sobre as terras e as riquezas nelas existentes (Feitosa, 2006, p. 13).

A partir dessas reflexões, quero eu tornar esta conversa dialógica, abordando algumas questões importantes e; que - a meu ver -, devem ser discutidas no atual cenário social, econômico e político no Brasil, sendo uma delas a relação entre a questão agrária brasileira e as insistentes invasões territoriais em espaços geográficos indígenas, para uma maior exploração das fontes naturais existentes nessas áreas.

Esse convite à reflexão, torna-nos companheiros na exploração dinâmica das variáveis que determinam esses processos e; é claro, não o faremos sozinhos, mas acompanhados por outros pensadores, que muito tem se debruçado na busca do desvelamento dos fenômenos sociais aparentes. Um deles é o pesquisador Florestan Fernandes (1920-1995), que se dedicou a estudar o processo da revolução burguesa no Brasil, respeitando os aportes históricos e sociais, que embasam as estruturas econômicas brasileiras e que determinam o tipo de capitalismo regente por aqui: o capitalismo dependente[5].

Não podemos nos esquecer que o Brasil teve a sua gênese sobre os princípios da contrarreforma e da exploração de novas terras, matriz portuguesa. O período colonial/escravista e; depois, o período republicano deram as bases da exploração pré-capitalista[6]. O Brasil nutria dentro de si a cultura da exploração e subserviência, que alimentava algumas famílias abastadas, sendo estas, o gene da oligarquia de interesses. Como caminhantes da obviedade, podemos compreender que até a ocorrência dos movimentos de industrialização tardia, ocorrida nos anos 50, o Brasil era uma nação, cuja matriz era rural ou campesina (Fernandes, 2006).

É fácil deduzirmos, através da teoria do capitalismo dependente, que o estudo desta formação social basal da sociedade brasileira reverbere atualmente como força antagônica nos interesses econômicos que se colocam em disputa no Brasil atual. Afinal, esta teoria - Fernandes (2006) -, disseca a fragilização social, política e econômica do capital brasileiro, agravadas pela selvageria e debilidade social percebidas desde o seu início, quando as relações de produção e entre classes sociais, ainda não carregavam a força do capital monopolista estrangeiro sobre si.

O Brasil é um país que dada sua base colonial não possuía uma burguesia em destaque em oposição à aristocracia agrária. Por ser um país do engenho, da fazenda e da estância pré-capitalista, a nação contou com o engajamento da aristocracia agrária no centro da transformação capitalista. Logo, percebido o surgimento do mercado e das novas relações produtivas, os jogos de interesses se voltaram a conciliação do poder colonial e neocolonial que garantiam o acúmulo monetário pré-capitalista e o maior lucro, próprio do capitalismo moderno. Houve, então, a junção do antigo e do moderno, “a antiga aristocracia comercial com seus desdobramentos no “mundo de negócios” e as elites dos emigrantes com seus descendentes, prevalecendo, no conjunto, a lógica da dominação burguesa dos grupos oligárquicos dominantes. ” (Fernandes, 2006, p. 247 apud Melgaco, 2022, p. 3).

Outro fator importante e essencial nessa transição é a composição sociopolítica de um país - sua origem capital. O Brasil não tem a sua origem capital a partir do sistema feudalista, mas sim a partir de uma sociedade escravocrata e este fato não é uma mera formalidade, pois economias pautadas em atividades escravistas tendem a ser estáticas e predatórias, com ausência de inovação técnica. “Por isso, o sistema de produção escravista só pode proporcionar uma base material, técnica e humana pobre ao capitalismo. ” (Saes, 2015, p. 2).

O que eu quero evidenciar nesta carta, caro leitor, são as artimanhas extrativistas da política econômica brasileira, que ainda se ampara na conciliação das classes via assistencialismo, como armadilhas postas à classe trabalhadora, que - geralmente iludida -, se coloca escrava de atividades ilegais e deletérias, sob penas de uma eminente destruição de si mesma. Logo, a partilha entre a questão agrária e a questão da existência indígena Yanomami se correlacionam via economia política. Sabemos que países subdesenvolvidos, como o nosso, sofrem uma grande pressão por parte dos países dominantes economicamente, principalmente sobre a questão agrária, pois esta está sob o domínio das estatais estrangeiras.

Este domínio controla a produção de base agrícola e tornam potentes as violências oriundas do capital, estendendo-as sobre os trabalhadores do campo e da cidade. Caldart (2009) expõe que essas violências se dão de formas distintas no Brasil e em contradição. Elas possuem uma mesma lógica estrutural, cuja intenção é expulsar o trabalhador rural do campo para incluí-lo na modernidade tecnológica, via indústria do agronegócio, que contraditória à promessa da inclusão, os mantém em escravidão. Portanto, este ataque desvela as contradições existentes dentro do sistema capitalista, que se caracterizam simultaneamente como social e ambiental, já que implicam de forma direta no futuro da espécie humana e de todo o seu meio ambiente em relação à sua sobrevivência.

Pode-se compreender, então, o porquê desses avanços violentos sobre os territórios indígenas e a sua dizimação, afinal as forças concorrentes dentro da economia exigem cada vez mais a exploração das terras através da expropriação, com o fim último da mais-valia (maior lucro), próprios do capitalismo monopolista[7], cujo surgimento no Brasil se dá no século XIX à década de 1950. O monopólio extrativista está nas mãos das economias centrais e cabe às sociedades marginais/periféricas garantirem manufatura, bem como a matéria-prima em sistema de commodities[8].

Pois é, adentramos mais intensamente na questão do agronegócio e este por sua vez está cada vez mais imbricado na consolidação do capital. Desta maneira é um grande produtor de guerra cultural/ideológica. Caldart (2009) informa que a indústria do agronegócio age na contramão dos movimentos sociais e da reforma agrária e promovem a falsificação da liberdade com promessas de resolução dos grandes latifúndios, pois aponta para a produção alimentícia e a expansão das divisas nacionais. Os donos de empresas se colocam em luta contra toda forma de luta emancipatória dos homens, espalhando mentiras sobre os movimentos de luta de classes. Isso é intencional, já que os mesmos precisam da ampliação da exploração e eles sabem que os movimentos sociais de luta são uma via resistente a esse modo de produção inerente ao capital. Ora, eles sabem que ao tornarem-se conscientes da exploração ambiental desmedida e suas consequências prejudiciais, setores sociais e de resistência se colocariam contra esta indústria e sua lógica de produção e; pior ainda, contra as tensões promovidas por este tipo de modelo econômico.

Paulo Freire (1921-1997) é essencial nesta conversa, caro interlocutor, pois ele foi um grande expoente da luta no campo, em especial na reforma agrária chilena. Muitos o interpretam de forma errônea, muitas vezes o tratando como um poeta sonhador. Seus escritos estão intimamente situados a sua própria experiência, a de um exilado. Nossa conversa torna-se neste instante mais humana e interessante. A questão que se levanta neste instante é: por que os seres humanos se autodestroem nas relações sociais, mantendo em sua prática ações violentas sobre culturas diversas? Juntamente com Freire e seus escritos tentaremos responder esta questão.

Dois livros são fundamentais para entender com lucidez a proposta sociopedagógica deste autor, Pedagogia do Oprimido, redigido no contexto da Reforma Agrária Chilena [1962-1973] e Educação como Prática da Liberdade. Percebe-se neste autor sua humanidade refletida pela busca de uma pedagogia libertadora das massas populares. Defensor da alfabetização, pode-se dizer que deu a ela o sentido de “Aprender a escrever a sua vida como autor e testemunha de sua história, isto é, biografar-se, existenciar-se, historicizar-se.” (Fiori, 2021 apud Melgaco, 2022, p. 6).

Freire (2021) em suas palavras introdutórias chama a atenção do leitor para que o mesmo faça uma abertura de sua consciência para além de suas crendices populares, ele impulsiona o diálogo de caráter transformador através da dialogicidade[9] como ferramenta capaz de transmutar o pensamento oprimido. Para este autor o fanatismo não é senão o retrocesso da consciência, porém a radicalização processual o caminho para que os homens reassumam a sua historicidade e o processo da criatividade produtiva que dá sustentação ao pensamento crítico. A dialogicidade não é um processo passivo diante de mecanismos opressores, mas uma possibilidade que se abre para a totalidade e a racionalidade, não impedindo a comunicação. “Se a sectarização, como afirmamos, é o próprio do reacionário, a radicalização é o próprio do revolucionário” (Freire, 2021, p. 37).

Caminhando obviamente com Freire (2021) podemos refletir que a relação do homem oprimido com a sua própria história é uma de suas preocupações, tanto que ele propõe que seja estabelecido dialogicidade entre o conhecimento popular e o conhecimento histórico acumulado pelos homens transmitidos pela escola. Desta forma, ele propõe a valorização dos homens e suas culturas, sendo contrário a verticalização da verdade. Ele acredita que através da ruptura conceitual – e isto é filosófico - os homens podem refletir a sua gênese, desvelando processos próprios da colonização, tão característicos à nossa própria realidade histórica, que em tempos modernos e; simbolicamente, têm colonizado também as mentes e o pensamento humano, caracterizando alienação do homem à sua própria produção histórica via trabalho e cultura.

Freire é importante para se pensar a questão agrária, visto que ele ficou imerso e participante na reforma agrária chilena, bem como as questões territoriais dos povos étnicos, pois sua teoria é uma teoria que pensa a prática humana que liberta os homens da opressão (Melgaco, 2022, p. 7).

Freire (1968) apud Vasconcelos (2020) explica que travou batalhas difíceis no Chile, principalmente na relação escolar dos trabalhadores rurais junto ao funcionalismo público setorial, que notoriamente se irritavam com a demora de seu método na obtenção de resultados no sistema produtivo, em detrimento às especificidades do trabalhador rural. Sua resposta viera com respeito ao universo cultural destes trabalhadores, afinal para ele a produtividade no processo de reforma agrária estava muito acima daquilo que a circundava, era cultural e; portanto, o aumento da produtividade jamais deveria ser olhado como uma instância separada daquilo que é universal ao contexto cultural dos trabalhadores.

Foi debatendo junto aos especialistas chilenos que Freire (1968) desenvolveu muitos de seus estudos teóricos, entre eles, a teoria da invasão cultural, cultura do silêncio e ação antidialógica. Para ele o latifúndio é uma base estrutural vertical e fechada em seus estratagemas, sendo por si mesma antidialógica. Logo, uma forma de romper o silêncio dos trabalhadores rurais, descobrindo suas causas, seria mediante um diálogo que se propusesse problematizador (Vasconcelos, 2020).

Nessa ação dialógica que, aqui e agora, estabelecemos nesta carta pedagógica, nós podemos - com outros - repensar a ação antidialógica, que ocorre nas relações de poder junto às populações indígenas. Diante dessas forças, o que se vê é o silenciamento das vozes indígenas. As estruturas sociais ora compram o seu silêncio na lei mercadológica do capital e ora retroagem com maior violência, dizimando as suas vozes e subjetividades culturais, mantendo-os na opressão e no apagamento existencial.

Para Freire (1967) quando os homens estão integrados, eles podem refletir a sua própria realidade de forma crítica e assim não se conformar a ela, modificando-a. Porém, quando os mesmos homens se encontram acomodados, eles não conseguem refletir a sua própria condição histórica, indo se moldando aos sistemas já impostos por outros homens. Dessa maneira eles não escolhem e apenas se ajustam ao já existente. O homem sujeito é um ser que está comungado e que é agente na natureza, transformando-a. Esse tipo de homem é automaticamente revolucionário, já que age contra as lógicas do mercado, ganhando a alcunha de subversivo.

Este autor continua defendendo que a grande luta dos homens é o não ajustamento, que pode ocorrer pela suplantação de variáveis que levam os homens a viverem o processo da acomodação. Trata-se uma luta humanitária, que sofre a todo tempo o impingimento de forças opressoras, várias vezes com a aparência de libertação. Afinal, na era da modernidade, o homem paga um alto preço por sua escolha e acaba sob o domínio das religiosidades, das fake news, cujo teor geralmente contém uma ideologia, o que os faz abandonarem o seu livre-arbítrio ou a sua autonomia decisória. Toda a atividade humana acaba sendo gerenciada por uma classe dominante, que outorga aos trabalhadores uma cartilha em forma de receita, um passo a passo de como agir, fazer, viver e existir. A armadilha está, que enquanto esses homens pensam estar sendo libertos de suas mazelas, eles, na verdade, estão sendo submersos na inexistência por uma mente massificada. A esperança e a crença para esses homens já não existem, estando eles mercadorizados e domesticados pelo sistema à configuração de um não-sujeito. “Daí que a massificação implique no desenraizamento do homem. Na sua “destemporalização”. Na sua acomodação. No seu ajustamento” (Freire, 1967, p. 42).

Freire (1967) continua: é preciso que se evidencie a atitude crítica como uma necessidade duradoura, pois esta é a única maneira em que o homem exercerá a sua disposição natural para a integração, podendo libertar-se da ação acomodada e ajustada. Este homem pode abarcar com profundidade novos temas e atividades de seu tempo. A integralização dá as bases radicais dos homens, dotando-lhes de historicidade e situando-os dentro das condições sociais que os cercam, porém, quando estes estão ajustados/acomodados não se reconhecem como homens históricos, tendo-se tornado homens das massas, seres tratados ou expressos em termos gerais.

Para finalizar a nossa conversa retomo as palavras de Freire (2021) em “A pedagogia do Oprimido”: a tendência social será sempre olhar para a resposta dos oprimidos de forma reprovável, já que esta resposta pode ser vista como uma atitude rebelde e violenta. No entanto, trata-se de uma atitude preenchida de amor, já que pode libertar o opressor. Ora, o opressor não tem consciência de que a violência que comete é contra ele mesmo, porque quando impede o outro de existir, também impede a si mesmo de ser autêntico. Portanto, aqueles que sob opressão se rebelam contra seus opressores, retiram de suas mãos o poder da destruição, lhes devolvendo a chance de restaurarem a humanidade perdida na utilização da opressão.

Gosto de pensar assim, caro leitor, que o amor está para além da utopia, é palpável e material. Não vem carregado de aforismos e essências românticas que distanciam amor e ódio. Na verdade, os aproximam enquanto potência, fazendo-os caminhar entre polos de afeto, devolvendo à vida humana o seu equilíbrio. Por mais amor freiriano, por mais gentes como a gente, por mais liberdade e acima de tudo por mais luta – toda forma - em respeito às existências. Se é que me entendem!

Com meu carinho e compromisso ético.

 

Subscrevo-me,

Campinas, 10 de agosto de 2023.

 

REFERÊNCIAS

 

CALDART, R. S. Educação do campo: notas para uma análise de percurso. Trab. Educ. Saúde, Rio de Janeiro, v. 7 n. 1, p. 35-64, mar./jun., 2009. Disponível em: https://www.scielo.br/j/tes/a/z6LjzpG6H8ghXxbGtMsYG3f/?format=pdf&lang=pt. Acesso em: nov. 2022. 

CIMI – Conselho Indigenista Missionário. Invasões de terras indígenas tiveram novo aumento em 2021, em contexto de violência e ofensiva contra direitos. Publicado em 16 de agosto de 2022. Disponível em: https://cimi.org.br/2022/08/relatorioviolencia2021/#:~:text=A%20consequ%C3%AAncia%20dessa%20postura%20foi,em%2022%20estados%20do%20pa%C3%ADs. Acesso em 10 ago. 2024.

CIMI – Conselho Indigenista Missionário. Relatório Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil: Dados de 2021. Brasília: CIMI, 2022. Disponível em: https://cimi.org.br/wp-content/uploads/2022/08/relatorio-violencia-povos-indigenas-2021-cimi.pdf. Acesso em: abr. 2023.

FEITOSA, S. A década da violência. In: CIMI – Conselho Indigenista Missionário. A Violência contra os povos indígenas no Brasil: 2003-2005. Brasília: CIMI, 2006. Disponível em: https://cimi.org.br/wp-content/uploads/2020/02/relatorio-violencia-contra-povos-indigenas_2003-2005-cimi-completo.pdf. Acesso em: abr. 2023.

FERNANDES, F. A Revolução Burguesa no Brasil: ensaio de interpretação sociológica (Cap. 5, 6 e 7). 5 ed. São Paulo: Globo, 2006.

FIORI, E. M. Prefácio. In: FREIRE, P. Pedagogia do Oprimido. 79 eds. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2021. 

FREIRE, P. Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1967.

FREIRE, P. Pedagogia da indignação: cartas pedagógicas e outros escritos. [Ebook online]. São Paulo: Editora UNESP, 2000

FREIRE, P. Pedagogia do Oprimido. 79 eds. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2021.

MELGACO, D. A. C. A questão agrária e as suas implicações na existência indígena Yanomami. Jornal A Tribuna, São Paulo, 31/12/2022, Artigos Científicos. Disponível em: https://jornaltribuna.com.br/2022/12/a-questao-agraria-e-as-suas-implicacoes-na-existencia-indigena-yanomami/. Acesso em 10 ago. 2024

OLIVEIRA, I. A. de. A dialogicidade na educação de Paulo Freire e na prática do ensino de filosofia com crianças. Movimento-Revista de Educação, Niterói, ano 4, n.7, p.228-253, jul./dez. 2017. Disponível em: https://periodicos.uff.br/revistamovimento/article/view/32633. Acesso em: 10 ago. 2024

SAES, D. A. M. Capitalismo e processo político no Brasil: a via brasileira para o desenvolvimento do capitalismo. Revista Novos Rumos, [S. l.], v. 52, n. 1, 2015. DOI: 10.36311/0102-5864.2015.v52n1.8481. Disponível em: https://revistas.marilia.unesp.br/index.php/novosrumos/article/view/8481. Acesso em: 10 ago. 2024.

VASCONCELOS, S. J. "O lápis é mais pesado que a enxada": reforma agrária no Chile e pedagogias camponesas para transformação econômica (1955-1973). 2020. 495 f. Tese (Doutorado em História Econômica), Universidade de São Paulo, São Paulo, 2020. Disponível em: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8137/tde-13042021-193600/publico/2020_JoanaSalemVasconcelos_VCorr.pdf. Acesso em 10 ago. 2024. 

VEIGA-NETO, A. Cultura, culturas e educação. Rev. Bras. Educ., Rio de Janeiro, n. 23, p. 5-15, ago., 2003. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbedu/a/G9PtKyRzPcB6Fhx9jqLLvZc/?format=pdf&lang=pt. Acesso em 10 ago. 2024.

VERÍSSIMO, M.P.; XAVIER, C.L. Tipos de commodities, taxa de câmbio e crescimento econômico: evidências da maldição dos recursos naturais para o Brasil. Rev. Econ. Contemp., Rio de Janeiro, v. 18, n. 2, p. 267-295, mai./ago. 2014. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rec/a/GzXNXQBDtbmqwVxhLRwY6Tj/?format=pdf. Acesso em 10 ago. 2024.



[1] Canção óbvia foi escrita por Paulo Freire em 1971. Um poema que chama os homens a ação: “Quem espera na pura espera vive um tempo de espera vã. Por isto, enquanto te espero trabalharei os campos e conversarei com os homens ...” (Freire, 2000, l. 06).

[2] Disponível em https://www.instagram.com/p/Ccy9OTHF7l0/. Acesso em: 01/12/2022 e https://www.instagram.com/p/CcTIdHylAar/. Acesso em: 01/12/2022.

[3] Disponível em: https://www.instagram.com/p/Cc8NfgkOx86/. Acesso em: 01/12/2022.

[4] O Cimi é um órgão vinculado a CNBB e há 49 anos vem atuando na defesa da população indígena brasileira. Disponível em: https://cimi.org.br/. Acesso em: abr. 2023.

[5] Um país capitalista dependente é aquele que está sob o comando dos interesses de outro país mais desenvolvido economicamente, cujo poder determinará como as relações de produção se darão internamente para satisfazer aos seus interesses. Em contrapartida, o governo de um país dependente se aliará aos interesses deste país, detentor do poder hierárquico e proporcionará todas as condições para que este processo ocorra, garantindo a segurança nacional, sendo desta maneira mais condescendente para com as indústrias internacionais e mais agressivo – internamente -, para com os seus trabalhadores (Conceito formulado a partir da leitura de Fernandes, 2006).

[6] Portanto a transição para o capitalismo brasileiro acontece em dois momentos distintos, caracterizando a nossa revolução burguesa: 1) a abolição da escravatura em 1888, 2) a proclamação da república em 1889, finalizando com a superação da atividade industrial sobre a atividade agrícola no final da década de 50 (Saes, 2015).

[7] Este tipo de capitalismo ocorre quando o capital e o mercado ficam sob o domínio de um grupo reduzido de indústrias. A explicação para tal fato se localiza na redução da concorrência, quando uma indústria maior compra as menores. Desta maneira, uma única estatal abocanha a maior parte do mercado, ganhando maior controle (Conceito formulado a partir da leitura de Fernandes, 2006).

[8] Produtos alimentícios, matérias-primas, minerais e energia e se relacionam com taxa de câmbio e crescimento econômico. “A literatura sobre a "maldição dos recursos naturais" (...) parte do pressuposto de que as economias ricas em recursos naturais tendem a apresentar menores taxas de crescimento econômico” (Veríssimo; Xavier, 2014, p.  269).

[9] “Na teoria dialógica freireana, o diálogo, que é comunicação, funda também as ações de colaboração entre os sujeitos” (Oliveira, 2017, p. 250).



[i] Mestrando em Educação, FE/Unicamp. Especialista em Educação Especial, Unimais. Graduada em Pedagogia, Ices; Graduada em Psicologia, Unip. Contatos: e-mail: d197129@dac.unicamp.br e damarismelgaco@gmail.com; telefone (35) 991896502.

terça-feira, 18 de junho de 2024

"Porque um joelho ralado dói bem menos que um coração partido ...".

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Meu verso livre hoje vai para a vida que questiona a dor. Parece que a gente precisa viver mil vidas para entender que a dor é o que nos mantém vivos. Dia desses, perguntei: "- O que seria da vida sem a dor?". Note-se que foi uma pergunta e não uma afirmação. Cada um dá a resposta de acordo com o que carrega dentro de si e de acordo com a forma como a compreende e se relaciona com ela. Quanto a mim, lavo a alma em soslaio, como quem tem algo do que se envergonhar ou não, talvez. 

Sei lá! Sempre tive uma relação intrincada com a dor. Mamãe dizia que eu dei muito trabalho! Não suportava o colchão do meu berço e só dormia aconchegada em seus braços. Talvez porque a vida me era estranhada desde lá. Contou-me que quando ela me gestava, sofreu um acidente de carro que deixou marcas em seu rosto e na perna do meu irmão mais velho. Aos seis meses fui parar numa UTI com pneumonia dupla. As sequelas me acompanharam a vida toda, asma e depois bronquite. 

Acho eu, que a vida sempre foi sufocante e; cá entre nós eu nunca gostei muito dela. Quando eu tinha cinco anos, uma parede de madeira caiu sobre mim. Meu pai estava desmanchando uma edícula de madeira e nós; eu e minha irmã do meio, brincávamos correndo sobre o assoalho. Foi sorte minha irmã ficar com a cabeça de fora e ser escandalosa (risos). Lembro-me do peso sufocante sobre mim, não havia o pensamento da morte, apenas a sensação angustiante. Foi um alívio quando meu pai ergueu a parede e me tirou de lá (eu sempre fui azarada, fiquei no meio do assoalho). Anos antes, havia quebrado a clavícula caindo de mau jeito do sofá, na casa de minha avó. 

Querido leitor! A mágica mortal, é sempre a contradição entre a dor e o alívio. Porque contradição é o que não falta a vida. E é justamente esta contradição que nos condiciona a viver na gangorra da dor e do alívio. O ditado "morde e assopra" se torna real e você se vê em meio a culpa de recusar o bem de quem te machuca. Em meio a dor o edifício da vida é construído, criando um ciclo que nunca acaba. Rompê-lo provoca medo e culpa. Culpa por não ser o que se espera, por não corresponder ao que desejam de você, pela ingratidão em não aceitar o bem que foi feito no meio da tempestade por quem deveria te amar, mas te feriu mortalmente. E o ciclo é tão violento que a vítima se torna o algoz de si mesmo e do outro.

Mas se o ciclo não se encerra, como aceitar a presença da dor? Se a dor é parte da existência, como conviver com ela? Durante muito tempo eu achei que para fugir da dor só existia um caminho: a morte. Se magicamente existisse outras vidas, penso ser eu uma suicida que voltou pra ser resgatada desta resposta. Óbvio que esta metáfora é para dizer que sempre fui uma suicida em potencial. A ideia de morrer sempre me acompanhou e; embora eu tenha apego a vida, muitas vezes já imaginei a minha morte. O que me manteve viva é não saber o que encontrar no escuro, neste vasto mundo desconhecido para além da vida.

Se a resposta não é a morte, qual é? Talvez, pelo menos para mim, seja aceitar que a vida é dor e que a dor é o que nos mantém vivos. Ultimamente tenho refletido sobre a vida e o fim último da humanidade: a morte. Quando nascemos, naturalmente nascemos em dor. Eu garanto para vocês que de todas as dores que eu já senti, a dor de um parto foi inigualável, nem mesmo quando quebrei a cartilagem do nariz ou quando tive uma crise de cólica renal. Talvez, como presente, a vida desejasse que eu experimentasse essa dor para compreender a sua importância. No parto mãe e filho nascem no experimento da dor e da alegria. O alívio sentido, a junção dos corpos cansados da mãe e do filho pela luta uníssona que inaugurou a vida. 

Tenho refletido em como, ao longo da vida, nós sobrevivemos. Por que não nos jogamos de penhascos? Por que não engolimos comidas ferventes? Por que não ficamos expostos ao sol torrencial ou em chuvas gélidas? Por que não entramos no meio do fogo ou colocamos nossas mãos nas chamas de um fogareiro? Certamente, não foi porque alguém nos disse. Foi porque alguém experimentou a dor de cair de um sofá e quebrou a clavícula, porque alguém - num dia comum - queimou a língua com algum alimento quente, porque alguém em algum momento experimentou as queimaduras do sol que quase lhe causaram uma insolação e porque alguém resfriou-se ou pegou uma gripe forte que a colocou na cama por alguns dias ou acabou por pegar uma pneumonia. 

A canção da Kell Smith, Era uma vez, possui o seguinte verso: "Porque um joelho ralado dói bem menos que um coração partido ...". Pois é, a dor que nos acompanha desde o nascimento é o que nos mantém vivos. Obviamente, que quem caiu do penhasco, raramente estará vivo para nos contar de sua dor mediante os ossos partidos e os órgãos rompidos, mas certamente o sobrevivente terá muito o que falar e; mais que isso, muito o que transmitir como aprendizado. O sobrevivente é aquele que vence a morte pelo alívio da dor, que cura as feridas, que cuida de suas cicatrizes com carinho e que por vivê-las, finalmente compreende a dor como o processo necessário para desenvolver a empatia. Afinal, morrer é causar dor, é partir corações, é matar aos poucos de culpa quem nos amava. 

Morrer, penso eu, talvez seja um alívio final para o sofredor, mas certamente será uma espada atravessada em quem fica com o "coração partido". A morte como ato final, talvez seja um movimento egoísta que visa punir o algoz, causador de nossa dor. Ou pode ser uma forma de dizer que não suportamos doer, não suportamos o ardor do Mertiolate, não suportamos a carga da vida dos que vivem em dor e nos imputam mais dor. Talvez seja a forma dramática de dizermos que estamos sós e em abandono. Que o nosso coração está partido pela falta do afeto!

Talvez seja, justamente por isso, que o ciclo se fecha entre a dor e o alívio de quem morde e assopra. Caro leitor! Eu achava que poderia proteger os que amo da dor do sofrimento, descobri que embora eles não tenham vivido as minhas dores e eu os tenha protegido em partes, eles tem vivido a dor de suas próprias escolhas. Nós não podemos proteger da dor que vem sem aviso, porém é a dor que nos avisa que algo não está bem e que precisa ser tratado. Eu quereria poder extinguir a dor, mas é justamente pela ausência dela que muitos tem sucumbido ao seu primeiro sinal. A vida dói, viver é um ato de coragem, porque morrer todos nós iremos, um dia. A morte já é o nosso destino final!  

Permito-me um adendo de que a vida que dói também é a vida que nos proporciona muitas alegrias. 



sexta-feira, 3 de novembro de 2023

Sobre guerras ...

Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2019/10/03/cultura/1570095492_593504.html


Por Dâmaris A C Melgaço

Uma possibilidade para refazer o caminho das relações humanas é a aproximação dos homens à sua própria indisciplina que é reificada na ação autoritária. Gosto de pensar sobre isso e o quanto isso é profundo. Pensar a humanidade a partir da categoria disciplina em dialética à indisciplina. Os homens estabelecem as regras e a priori determinam a ação, catalogando-a em certa ou errada. Como consequência social àqueles que desobedecem o esperado da ação são categorizados como indisciplinados ou a rigor como rebeldes.

Refletir os homens a partir de sua dualidade me coloca na dimensão da suspensão. Analisando a ação do rebelde, observa-se a necessidade de fazer valer a sua vontade analítica de determinada realidade incômoda. Da mesma forma, a ação autoritária carrega esta essência e; portanto, nada mais é que um ato de rebelião, pois também compreende uma inconformidade. Ambas ações estão imbricadas nesta necessidade birrenta de fazer valer uma vontade.

Em se tratando da humanidade, cada indivíduo é essa contradição inerente a ação. A humanidade revive a rebeldia infantil mal resolvida no ato da birra, cujo momento prescinde a frustração. Seja feita a minha vontade, assim na terra, como no céu e/ou seja feita a tua vontade assim na terra como no céu. O homem vivencia a negação da vontade e experimenta a frustração. Para tanto, se aprisiona na ação rebelde e autoritária e/ou autoritária e rebelde.

É paradoxal que a birra permaneça e reapareça nas ações humanas de tempos em tempos e; ela vêm forte, na forma das revoluções, guerras, violências e holocaustos. Cada qual, imbuídos pela ânsia da vitória se impõem sob a máxima justificativa da violência homicida. Nesta vontade mal resolvida, envolvem os deuses, os mitos, as crenças morais, como a própria justiça e toda sorte de seres alados e heroicos, etc.  

Cada qual apegado a um deus abstrato, seja ele uma força moral, ética ou religiosa, sente a necessidade de ter os seus gurus, pensadores, homens e mulheres da guerrilha, etc., formando assim um campo vasto de pretensos salvadores da pátria. Não importa por que fins, mas afinal, disse Maquiavel: eles justificam os meios! E neste baile de loucos egoicos, auto intitulados avessos aos misticismos e/ou não, constroem para si a falsa ilusão de serem deuses e; pasmem - os mais justos. 

Nesta dança das cadeiras dos justos juízes, os banhos de sangue se justificam. Ao longo da história vimos homens e mulheres soterrados em poços, em campos de concentração, mortos por discordarem de seus próprios camaradas, tudo em nome de uma pseudo justiça que nunca chegou. Seus deuses mataram a terra, dizimaram povos, destruíram a natureza. Em nome da vontade, disfarçada de bondade, construíram castelos de ossos e de vidas humanas.

Religiosamente, clamam as almas sequiosas por justiça, mas qual? Onde ela se esconde, que eu não a vejo? Às vezes; e somente as vezes, contemplo lampejos de justiça e cuido para que a justiça que habita em mim não seja morta, pois eu também sou rebeldia e autoritarismo. Enquanto a humanidade não compreender a dimensão da paz, que implica na compreensão de sua própria rebeldia e indisciplina, não poderá vivê-la e nem dela usufruir. A guerra é possivelmente o sintoma na ação e reação humana de uma birra civilizatória mal resolvida.

Portanto, entendo eu que ela é uma ação burra e ignorante, fruto dessa volição coletiva infinita propriamente humana e inaugura os ciclos infindáveis das disputas que, inevitavelmente -, possuem um destino final: a destruição do planeta Terra. O juízo final, coleguinhas, é a própria humanidade!

domingo, 2 de julho de 2023

Sinto muito ...

A roseira de Monet [1910]

Eu sinto muito se não posso acreditar na violência como um caminho para a paz.

Eu sinto muito se não posso acreditar nos jogos políticos como um caminho para a conciliação. 

Eu sinto muito se não posso olhar o mundo com as janelas do justificável. 

Eu sinto muito se minhas lentes são de aumento, se eu vejo por cima dos muros.

Eu sinto muito se não me amparo nas ideologias, se não confio nelas.

Eu sinto muito por duvidar da humanidade. Por não acreditar em suas vãs promessas.

Eu sinto muito por ser inquieta e revolta, por contestar, por emitir provocações que rompem a ordem das coisas.

Eu sinto muito por ser quem sou. Sinto muito, muito ... Por não acreditar nas mentiras do meu coração. 

Eu sinto muito por me esgotar diante das injustiças,  por morrer a cada segundo, quando em contato com os aplausos desta sociedade perdida.

Eu sinto muito por não poder ser liberdade, quando tudo é prisão. 

Sinto por mim, por nós, todas as vezes que canto, que choro, que guerreio com a inquietude diante dos fatos.

Sinto muito pela hipocrisia habitante dos seres, que preferem viver ausentes de si e presentes aqui e agora, à luz das propagandas enganosas.

Eu sinto muito por nós, que convivemos com as sombras que nos habitam e que em nós foram introjetadas à força. 

Eu sinto muito e me lastimo por esta sorte de habitar entre os homens. 

Olhando a carcaça social,  sem nada poder fazer. Eu sinto muito!


terça-feira, 2 de maio de 2023

A arte de ser conhecido, o epicentro

https://www.greenpeace.org/brasil/blog/todos-juntos-em-defesa-do-meio-ambiente/


Dizem que as forças determinam as condições, eu digo que as condições determinam as forças. Se somos intimamente, participantes dos processos sociais, então; somos os responsáveis pela constituição das forças que controlam os espaços sociais, porém as condições materiais pré-dadas são as alavancas para o desenvolvimento destas forças.

Condições de base material permitem que os processos evolutivos dos homens em relação ambiental ditem o caminho das forças que se instituem dentro da sociedade e que, posteriormente, controlarão a forma como os homens convivem.  Não podemos afirmar que as forças determinam as condições, pelo simples fato de que as forças sociais inexistem sem a presença de um ser social. 

No entanto, as relações naturais, em nível biológico, acontecem obedecendo um sistema caudal. É assim no mundo cíclico. Os seres naturais coexistem em um ambiente natural, obedecendo as condições ambientais, consideradas forças naturais. Isto parece paradoxal ao dito anteriormente e poderíamos facilmente perguntar: - O que veio primeiro - o ovo ou a galinha?

Chegamos no encontro das oposições, que pedem uma intersecção.  Primeiramente, é necessário distinguir o caminho das forças, pois existem duas - uma natural e outra construída. A primeira é condição para a sobrevivência e a segunda é oriunda da primeira e possui desdobramentos somente possíveis na presença do ser social, um humano capaz de pensar as condições primeiras e reorganizar a segunda. 

O homem como ser natural relaciona-se com a natureza e dela retira os meios para a sua sobrevivência, a esta ação, chamamos imediata. Essa sobrevivência depende de diversas condições, desde as climáticas, geográficas, físicas, etc. No entanto, estas condições ganham uma nova configuração quando os homens juntam-se para pensar formas coletivas de burlar as condições naturais, criando resoluções e registrando as mesmas. Forças sociais vão ganhando condições novas a medida em que os homens vão recriando maneiras de viver e conviver. 

É interessante pensarmos como a humanidade é capaz de dominar a natureza e transformá-la a seu bel prazer. Cada vez mais os homens apropriam-se das condições naturais e transformam-na. Gosto da analogia metafórica em que o homem através de seu poder transformador, recria o mundo. Ao transformar a natureza ele se expande na ação-reação. Criou a machadinha e estendeu suas mãos, criou a roda e extensionou seus pés, descobriu o fogo e extensionou a pele, inventou o computador e ampliou o cérebro. Característica própria do humano é trabalhar a seu favor, mas - estranguladamente -, em seu oposto. Notoriamente, essa busca para a acomodação dos sentidos, impele os homens - cada vez mais -, a subjugar o cosmos em torno de si mesmo. 

O instinto humano transmuta-se para além da natureza, implicando no desequilíbrio cíclico. Visivelmente, escancara-se a matriz básica dos desequilíbrios humanos: tudo que o homem cria é lixo, ou quase tudo. Ao transformar a natureza criando suas extensões o ser humano produz lixo. Eu sei, muitos dirão: - Você está sendo radical. Sinto dizer que a radicalidade é o princípio ativo da crítica, então eu sou radical.

Em "Discurso de Primavera e algumas sombras", Carlos Drummond de Andrade, em seu poema - Antibucólica 1972 -, questiona: " - Até a clorofila?..." (2014, p. 113). Este autor inicia seus versos interrogando a antítese da saúde e da doença, que prescinde às relações do homem com a natureza. Toda a secção recebe o título de ASSIM VAI (?) O MUNDO. O ponto de interrogação é essa brecha ausente entre a vida e a passagem da vida no mundo, mas que subentende a culpa humana, ou talvez a sua não isenção nesta passagem.

Com que prazer me uno aos seus versos:

[...] Diz-nos um doutor
de Illinois que, em matéria de monóxido
de carbono, a graminha é uma parada.

Aparemo-la então, que em disparada
a relva, no jardim ou em depósito
no quarto de dormir (sei lá) é o mesmo que automóvel queimando gasolina.

O poema é tão dialético e aponta para o epicentro da bucólica vida dos passantes, no entanto é antítese. Ressalta a incerteza dos homens na relação natural, na imediaticidade da relação, que bucolicamente retoma a natureza como seu habitat saudável. No entanto, de maneira catártica, às vistas de uma notícia, o poeta desvela a ruptura entre as forças naturais e as culturais, para em seguida afirmar:

— A sina, pois, do mundo, é sem remédio?
Se da fumaça escapo, e rodo a esmo
pelos parques cisneiros da cidade,
trato de preparar meu epicédio,
pois o verde de amigo fez-se inimigo
e me leva, com toda a falsidade,
para o último hotel, vulgo jazigo.

Aqui o autor encena a culpa da natureza e; de forma irônica, encaminha seus versos à natureza, impondo-lhe cinicamente a culpa de suas mazelas. Há a inversão proposital das culpas. No entanto, deixa claro o autor, que o veneno humano subjuga a todos, transformando as condições.

Não são usinas gigantescas,
bombas, resíduos mil, restos largados
à flor das águas em sinistras bolhas
que corrompem a vida que vivemos.
É a grama, o capim, leve, ondulante,
forma que o vento curva a seu talante,
e que, ao perecer, nos envenena
o ar, desprendendo o tóxico tremendo.
É grama, é folha, é rama, ó Tom, é planta,
são as flores de março… mas que pena.

O autor está em luto, ao reconhecer o cinismo sepulcral dos homens. Silêncio entorpecedor das vicissitudes humanas, camufladas na culpa dos vegetais. Retomar as relações do homem com a natureza, requer reconhecer a responsabilidade humana em sua transformação. Drummond (2014, p. 114) continua: 

A poluição, sabe-se agora, é velha
mais do que o homem. E não será o homem
freguês da poluição, em vez de autor?
Por pessimista, rogo, não me tomem,
nem quero ser tachado de farsista:
se tudo é poluição, até na flor,
no vergel, no quintal, seja o que for,
tratemos com a máxima presteza
de redigir político tratado:
teremos cativado a natureza,
convindo em que convivam lado a lado
o homem e a poluição fazendo amor.

Este final conspira para a máxima individualista, cuja letal sorte é a morte. Retomamos aqui a questão inicial, expondo as determinações sociais da vida humana reverberadas em sua primeira condição: a natural, o que retira da natureza a culpa e nos devolve a sentença. Ao recriar a natureza o homem é o alquimista voluntário, o manipulador das poções, o grande místico da natureza. Ao recriar a si mesmo, esse mago destrói o espaço natural do seu habitat. A quantidade de lixo que criamos e jogamos na natureza, contaminando-a com nossos resíduos é o grande dano, cuja máxima garantirá a morte de toda a condição primeira. 

Um relatório da Comissão Lancet sobre Poluição e Saúde publicado na revista científica The Lancet Planetary Health informa que a poluição do ar ambiente foi responsável por 4,5 milhões de mortes em 2019, ante 4,2 milhões em 2015 e 2,9 milhões em 2000. As mortes por poluentes químicos perigosos aumentaram de 0,9 milhão em 2000, para 1,7 milhão em 2015, para 1,8 milhão em 2019, com 900 mil mortes atribuíveis à poluição por chumbo em 2019. No geral, as mortes por poluição moderna aumentaram 66% nas últimas duas décadas, de uma estimativa de 3,8 milhões de vítimas em 2000 para 6,3 milhões em 2019 (¹). 

Lembremo-nos que nossa alquimia, subordinada às ordens econômicas, determinam o nosso fim. Essa postura individualista que cinde a condição natural, é a premissa da decadência. Quanto mais determinados em ampliar nossos corpos, menos humanos nós somos. Estão aí a robótica e as inteligências artificiais. Esse assunto daria pano para a manga, mas por agora, ficam estas reflexões. 

Termino, retomando Drummond em seus versos do poema "Mal do século": 

Como se não bastasse o mundo de tristezas
entre céu e terra,
principalmente em terra,
vem o agrônomo, descobre
o vírus da tristeza nas laranjeiras. (p. 112).


Referências:

(¹) Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/saude/com-9-milhoes-de-mortes-em-2019-mundo-avanca-pouco-contra-poluicao-diz-estudo/#:~:text=A%20polui%C3%A7%C3%A3o%20do%20ar%20ambiente%20foi%20respons%C3%A1vel%20por%204%2C5,polui%C3%A7%C3%A3o%20por%20chumbo%20em%202019.

ANDRADE, C. D. de. Discurso de Primavera e algumas sombras. São Paulo. Cia das Letras, 2014.

quinta-feira, 13 de abril de 2023

O que é construído pelo humano, no humano permanece

 
Santiago Bou Grasso, Animação El Empleo, Opusbou, 2008

Dâmaris Alcidia da Costa Melgaço 

Refletindo sobre o temporal na história humana, às vistas do momento e às suas produções no campo vasto das ciências, cuja reflexibilidade é a totalidade de um momento cultural, reificado humano; coloco-me a dimensionar a hermenêutica aplicada aqui e agora neste tempo, que é também outro, pois o que é do humano, no humano permanece. Como diria Benjamim: o velho que é sempre um novo, ou o novo que é sempre igual.

Ao olharmos para a história humana em um determinado tempo, pelos homens experienciada neste mesmo tempo e sabendo que a produção científica obedece a este tempo cultural e torna essa produção abstrata em materialidade humana, podemos interpretar um novo tempo, bem como a natureza humana e suas relações no ambiente e a forma como tendem a se repetir. É princípio exegético.

O capitalismo,  as ações humanas, todas as estruturas criadas pelos homens são produção de homens e; portanto,  pelos próprios homens mutáveis,  se assim o quiserem.  

Não são entidades pré-existentes. O próprio capitalismo é um fenômeno social. Marx investigou esse fenômeno em seu radical. 

O capitalismo é cultural e possui seus estratagemas e conceitos ideológicos que o definem. Nós somos essenciais para que a mudança aconteça, pois se nós fomos capazes de criar este sistema operante, nós também somos capazes de recriar - pela revolução - novas formas de viver em sociedade. Formas mais justas e igualitárias, que rompam o ciclo do novo sempre igual, ou seja; do novo que sempre aparece travestido do velho e vice e versa.

Mas - aqui entre nós - tenho refletido nas contrariedades existentes em nós mesmos. Nas coisas mais simples da vida. 

Hoje ouvi uma pergunta e uma afirmação. "Tem capitalista aqui? Creio que não". Obviamente que nao havia na plateia nenhum grande detentor do capital, mas a grosso modo eu diria, que têm, simbolicamente.  Nós somos capitalistas, vivemos no capitalismo, consumimos o capitalismo. Essa sociedade é a sociedade do capital. Talvez o que tenhamos é a consciência do que seja o capitalismo e de todos os seus efeitos nocivos, mas na práxis sempre há quem arrume os nossos lençóis.  Esses seres que andam pelos corredores sempre com a vassoura na mão, que entram em nossos quartos, limpam a nossa sujeira, servem as nossas mesas, limpam a nossa privada e nos observam de longe, a banhar-mo-nos nas piscinas, aproveitando o dia. E não me tomem por pretensiosa, porque eu me identifico como a um deles. 

Pois é,  caro leitor, alguma vez você já parou para olhar nos olhos deles? Eu já.  Eu vejo com que admiração nos olham. Nao sabem eles que eu os admiro ainda mais. 

Vivemos um verdadeiro avalanche de vaidades.

Pois é,  assim sou eu. Saio daqui pequena como cheguei e assim sempre serei. Vivo à sombra de um pequeno deleite: a minha nulidade e todas as outras. E a vida continua a dar passagem.







segunda-feira, 10 de abril de 2023

Tendas do caos

Fonte: Estado de Minas


Desde os últimos acontecimentos, ocorridos no dia 07 de abril de 2023, em Blumenau, ondas de terror tem-se espalhado nos campos escolares. As mídias e a cotidianidade dando eco às velhas vozes terroristas do caos iminente. Acreditem, embora haja uma corrente massiva para a não divulgação do caos, ela se materializa no meio das massas populares.

Escolas têm-se movimentado para trazer maior segurança aos seus alunos. Ontem mesmo, ouvi relatos de que as providências se intensificam na abertura e fechamento de portões, na recepção de encomendas e de tudo àquilo que fuja a rotina escolar. As salas e os burburinhos dão conta de historietas de massacre pré-datados para abril. Dia desses, foi noticiado que nos Estados Unidos da América, criaram sistemas de proteção, cujo esquema constrói uma sala a prova de balas dentro da sala de aula, vistas ao histórico considerável de invasões e assassinatos dentro das escolas norte americanas.

São vários os fatores que envolvem esta premissa oriunda da evolução de efeito destrutivo capitalista, entre eles a indústria das armas, financiamento às guerras e apologia ao armamentismo populacional. Outros fatores, referem-se às tecnologias e ao avanço destas ferramentas na colonização das mentes humanas. Cada vez mais os algoritmos dominam a vida humana e implantam seus chips consumistas e ideológicos na ação-reação dos humanos, cujo teor é humanoide.

O que pretendo dissertar não são exatamente estes fatores, embora conversem entre si, mas o fato ideológico, que aparelha duas instituições: a escolar e a prisional.  Temos um retrocesso ou um avanço sobre a estrutura escolar, que mais parece um sistema prisional? A escola brasileira - simbolicamente - vivenciou em sua constituição histórica vias disciplinadoras e de controle do corpo, pode-se dizer pareado às práticas já discutidas por Foucault (1975) em seu livro "Vigiar e Punir". 

A questão problema, na atualidade, é a seguinte: A contraposição entre a segurança e a insegurança gerada por esta forma - acima explicitada -, de viver em sociedade tornará a escola numa prisão literal, cuja entrada por seus muros se dará sob extrema vigilância, controle de força humana armada e revistas escolares, retificando processos autoritários e disciplinadores?  

No Brasil, o movimento de institucionalização escolar ocorreu ao longo do Império Brasileiro e primeira República do Brasil - séc. XIX, com observância às especificidades e modalidades educativas, período concomitante o qual desenvolvia-se, na Inglaterra, a teoria de Francis Galton (1869), a de que "a capacidade humana decorria da hereditariedade mais do que da própria educação." Nas primeiras décadas do século XX, influenciada pela ideologia eugenista/higienista,  nas cidades do Brasil - em especial na cidade de São Paulo -, além das áreas médicas e sociais, a educação brasileira também sofreu a imposição ideológica dessa teoria, que  compreendia a população brasileira como degenerada -  por conta da sua miscigenação - e que; portanto, necessitava de uma purificação. 

Resumidamente, a eugenia aplicada no Brasil teve como objetivo selecionar os homens através do aumento gradual da saúde mental e física e da subtração da fraqueza, da doença e da degeneração. Quer-se-ia homens fortes, belos e sadios. A educação, portanto, foi elencada como uma das formas de propagar estes ideais. Ela tinha a função específica de estimulação de habilidades dos eugenizados. No entanto, acreditava-se que os fatores hereditários - disgênicos - eram impossíveis de serem modificados e; portanto, a educação e seu ideal transformador da sociedade era inatingível.

O ideal: "quem é bom, já nasce pronto" carregava a insigne do fracasso e havia a defesa de que a educação era limitada em relação aos educandos, por esta razão cada indivíduo possuia atributos que deveriam ser considerados no processo educativo. Cabia a educação fazer florescer estas boas características pessoais, qualidades próprias do ser, habilidades e tendências vocacionais que ainda não haviam sido exploradas. 

Ressalta-se que, fatalista, a educação nesse momento histórico brasileiro, desejava a promoção da consciência do ideal eugênico nos jovens escolares, cuja mistura racial era condenada pelo risco de degeneração racial. Era propagada a ideia de união corpórea e filiação apenas entre iguais - raça e classe social -, pois isto contribuiria para que uma elite nacional sadia e consistente se estabelecesse. 

Quanto as reformas educacionais neste período a proposta continha moralidade, bons costumes e melhoria no condicionamento físico humano - raça forte e padrão estético eram uma prioridade.  As constituições brasileiras de 1934 e 1937 continham dentro de si o ideal eugênico como política nacional, que tinha como objetivo condicionar moralmente e disciplinar os corpos através da educação física. Esse movimento era imprescindível para a formação de um estado totalitário e populista. Em relação ao adestramento, Foucault explica:

“Adestra” as multidões confusas, móveis, inúteis de corpos e forças para uma multiplicidade de elementos individuais — pequenas células separadas, autonomias orgânicas, identidades e continuidades genéticas, segmentos combinatórios. A disciplina “fabrica” indivíduos; ela é a técnica específica de um poder que toma os indivíduos ao mesmo tempo como objetos e como instrumentos de seu exercício (FOUCAULT, 1987, p. 195).

Fazendo a intersecção destes pontos da história da educação nacional brasileira e a formação do sistema prisional de Foucault (1975), podemos inferir semelhanças ideológicas que se perpetuam ao longo da história e das forças produtivas presentes no campo histórico, comum às sociedades capitalistas e a ordem das classes. Em ambos os movimentos percebe-se a necessidade da disciplinarização dos corpos para a máxima cooptação humana do estado. Ao analisar o sistema prisional este autor explicita a interioridade destes aparelhos repressores e punitivos, que estão para além da punição da psiquê, elas se propõe na regulação do corpo individual, coagindo e estimulando uma educação total do indivíduo e regulamentando todos os movimentos do corpo. 

Neste sentido, ele continua, além de retirar dos indivíduos as suas liberdades, o sistema prisional os transforma tecnicamente e politicamente. No entanto, essa transformação passa despercebida por causa de suas cristalizações diversas. Não é violenta e nem explícita, é infiltrada sutilmente como uma microfísica do poder, que se interpõe entre a instituição e o próprio corpo. Afinal, existe um ideal de ortopedia social a ser alcançado, cuja vigilância atinge o esperado. Na prisão, a corporeidade dócil é produzida: para a economia - produtivo, para a sociedade - civilizado, para a política - disciplinado e devotado a prática e ordem estatal.

Walhausen, bem no início do século XVII, falava da “correta disciplina”, como uma arte do “bom adestramento”.1 O poder disciplinar é com efeito um poder que, em vez de se apropriar e de retirar, tem como função maior “adestrar”; ou sem dúvida adestrar para retirar e se apropriar ainda mais e melhor. Ele não amarra as forças para reduzi-las; procura ligá-las para multiplicá-las e utilizá-las num todo. Em vez de dobrar uniformemente e por massa tudo o que lhe está submetido, separa, analisa, diferencia, leva seus processos de decomposição até às singularidades necessárias e suficientes (FOUCAULT, 1987, p. 195).

 Resultantes da nossa história na história dos homens percebemos o adestramento como obra supernal do Estado.  

Não é um poder triunfante que, a partir de seu próprio excesso, pode-se fiar em seu superpoderio; é um poder modesto, desconfiado, que funciona a modo de uma economia calculada, mas permanente. Humildes modalidades, procedimentos menores, se os compararmos aos rituais majestosos da soberania ou aos grandes aparelhos do Estado. E são eles justamente que vão pouco a pouco invadir essas formas maiores, modificar-lhes os mecanismos e impor-lhes seus processos (FOUCAULT, 1987, p. 195).

Retomando a questão primeira, levantada nesta discussão, vemos um retrocesso paradoxal aos sistemas educacionais, e supomos não haver como fragmentar o espaço escolar da totalidade histórica do controle, já que a educação, assim como todas as outras ciências retroagem a sua base estrutural, que é acima de tudo econômica e política.

Continua (...)








Os astros me ensinam meu lugar

Por Dâmaris A C Melgaço Eu gosto de contemplar a noite e de olhar para o céu. Ao olhar para cima, contemplo também a minha insignificância h...